Caderno C
Segunda-Feira, 28 de Abril 2008 - 22h35
CHARLES EM AÇÃO Desenhos precisos a partir de fotografias
Charles Laveso nasceu sem o antebraço esquerdo, mas nem por isso é um sujeito mal-humorado:
- Alguns dizem que, o que eu faço com um braço só, muita gente não faz com os dois, brinca.
Sem falsa modéstia, é a mais pura verdade. O tipo de desenho que este paulista de 30 anos faz pode não agradar especialistas em arte contemporânea, mas impressiona. O que Charles cria é auto-denominado hiper-realismo a lápis, uma técnica que reproduz com exatidão retratos de todo o tipo e, por isso mesmo, é extremamente popular.
Durante os minutos em que o desenhista concedeu a entrevista na Esplanada do Theatro Pedro II, não parou de distribuir cartões a vários interessados que andavam pelo Centro da cidade.
- Já tinha visto a obra dele no shopping e nas ruas e gostei muito, afirma a publicitária Larissa Carolina Aguiar, que pretende encomendar um desenho dela junto com o namorado Lucas.
- O que ele faz é perfeito, acrescenta a publicitária.
Charles nasceu em São Caetano do Sul, mas logo mudou-se para Campinas. Começou a desenhar ainda garoto, quando reproduzia os heróis dos quadrinhos e dos desenhos da TV. Em 1993, sua vida mudou quando viu pela primeira vez um artista na tradicional Feira de Artes no Centro de Campinas fazendo um desenho realista de uma fotografia.
- Para mim foi uma descoberta indescritível, recorda.
O garoto ficou horas ao lado do artista observando cada traço feito e o material usado para a obra. Só depois de um mês teve coragem de falar com o sujeito e mostrar os seus trabalhos.
- Ele me deu algumas dicas e o resto foi comigo. Desenhava todos os dias, comenta este autodidata convicto.
A partir de 1996, Charles passou a se dedicar apenas aos desenhos. O começo pelas ruas e avenidas de Campinas não foi nada fácil. Munido de prancheta, um banquinho e lápis, saía em busca de clientes. Em 2001 foi convidado a fazer parte da Feira de Artes de Campinas onde tudo havia iniciado, e em 2002 foi premiado no Salão de Artes do Instituto Adventista de São Paulo. Em 2003 casou-se e um ano depois, mudou-se para Brodowski. Mas por que Brodowski?
- É uma longa história, mas pode dizer que me mudei por causa da família, desconversa.
Portinari
O curioso é que o desenhista sequer fazia idéia de que acabava de se mudar para a cidade de Candido Portinari, um dos maiores pintores do Brasil.
- Demorou para cair a ficha, garante Charles que, apesar de respeitar a obra de Portinari, revela que o modernista não faz muito seu estilo. Prefere o paulista Nelson Alves, mais conhecido como Nelves, ilustrador que trabalhou anos na revista Placar.
Apesar de nunca ter pisado numa escola de Belas Artes, Charles diz sem remorsos que sua arte é acadêmica e que privilegia o desenho acima de tudo.
- É um trabalho que exige tempo. Por isso, só faço desenhos a partir de fotos. Para garantir a riqueza de detalhes, explica.
O desenhista leva de cinco a dez horas para finalizar um trabalho, dependendo das dimensões da obra e do grau de dificuldade. Vê-lo trabalhando é um show a parte e que atrai muitos curiosos. Utiliza lápis de uma marca alemã com vários tipos de grafites. Para o sombreamento, usa um pincel e até mesmo papel higiênico.
- Reproduzir uma foto do jeito que ele faz é muito difícil, afirma o aposentado José Rosado, que logo pede o telefone de Charles.
Mas apesar do assédio nas ruas, o desenhista informa que é nos shoppings que consegue comercializar mais suas obras.
- Quando exponho nos shoppings chego a fazer uma encomenda por dia. Além disso, na rua tem o problema da fiscalização que às vezes pega no pé, afirma.
Charles diz que realiza em média de três a quatro desenhos semanais e as obras podem custar de cem a oitocentos reais. Para complementar o orçamento, também dá aulas num pequeno ateliê que montou numa sala na rua Américo Brasiliense. Tem atualmente 25 alunos.
- É um curso livre, mas estabeleço um prazo mínimo de seis meses para que a pessoa já tenha uma boa noção de desenho, ressalta.
Para Charles, um bom desenhista tem que ter disciplina, força de vontade e fé em Deus. Seguindo estes preceitos superou muita coisa. Desde as críticas de familiares que não acreditavam que um dia viveria de arte, até deficiências físicas. Além de ter nascido sem o antebraço direito, o desenhista é daltônico, o que explica sua preferência pelo preto e branco.
- Confundo algumas cores e tons, por isso para mim o preto e branco é um terreno seguro, explica.
Agenda
Artista vai expor em maio no shopping
- Quem quer conhecer um pouco mais da obra de Charles Laveso pode conferir seus trabalhos no terceiro piso do Shopping Santa Úrsula, onde vai expor de 2 a 31 de maio.
- Pai de Davi e Sara, de 4 e 2 anos respectivamente, afirma que os filhos também gostam de desenhar, mas ainda não sabe com certeza se herdaram o talento do pai.
- Espero fazer como os chineses, que passam a técnica de pai para filho, argumenta.