Vicente Golfeto
Segunda-Feira, 28 de Abril 2008 - 23h28 Quando as crianças são muito travessas – não param de se mexer – elas merecem uma qualificação: têm o bicho-carpinteiro. Ouço isto desde criança mas não sabia o que era bicho-carpinteiro. Hoje também não sei.
O que se quer dizer é que a criança tem bicho no corpo inteiro. Por isto não ficam paradas.
Também continuo ouvindo que “gosto não se discute”. Não tem muito sentido mas procurei entender a assertiva ligando os fatos.
Há provérbio latino que diz que de gostibus non est disputandum.
Tentando traduzir: gosto não se disputa. Aí, sim. A disputa ocorre em várias áreas do conhecimento humano. Inclusive e principalmente nos esportes. Mas nunca nos gostos. Estes não podem ser disputados. Mas há discussão – até feroz – em termos de preferências.
O tempo vai passando e os provérbios populares vão ganhando conotações e sentidos diferentes. A semântica – área do conhecimento humano que explica a variação dos vocábulos ao longo dos tempos e nos diferentes lugares – nos dá sentido plural inclusive a expressões.
As palavras têm alma.
Otto Lara Rezende dizia que “fazer política é colocar a mão no excremento”.
Excremento é o que se põe para fora. Daí o prefixo ex, que é o mesmo de expor, de exportar e de outros. Mas incremento é colocar para dentro o que, depois de transformado, é posto para fora. Evacuado. Incrementar uma idéia é alimentá-la, incentivá-la. Acelerá-la. O prefixo in é o mesmo de importar, ingerir, impor.
A biologia nos ensina que o excremento de uma espécie é o alimento de outra. O que nos permite dizer que incrementar e excrementar podem ser a mesma coisa. Apenas que para espécies diferentes. A galinha – ave coprófaga, vale dizer, que come as próprias fezes – faz do seu excremento o seu incremento. Um banquete.
Gosto não se disputa ou gosto – como pensei que estivesse errado – não se discute?