Jornal A CIDADE

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Hamilton de Andrade Lemos

Quarta-Feira, 30 de Abril 2008 - 22h45

Fábula do trabalho


Nada tenho contra o trabalho. Apenas não concordo em realizá-lo todos os dias, nos rígidos horários determinados. De vez em quando já está de bom tamanho. Ao contrário, tenho um vizinho que mandou colocar um cabo bem longo na enxada, só pra ficar mais distante do serviço.
Mas conheço uma história muito boa sobre a razão do trabalho. O sujeito morreu e foi parar num lugar paradisíaco. Quase igual ao Mediterrané. Logo apareceu o dono do lugar e lhe disse que poderia aproveitar de tudo o que havia ali.
Apresentou-lhe fartos banquetes, sempre variados e à disposição do seu apetite. Um tipo de cozinha internacional 24 horas. Mostrou-lhe instalações suntuosas e dignas do mais absoluto conforto. Em todos estes lugares, as mulheres mais lindas e sugestivas que a libido masculina pode desejar. Praticamente o desfile da Victoria Secret. E assim por diante, desfiou abundância para todos os sentidos.
Não esperou o dono falar duas vezes. Caiu na farra por dias, noites e anos a fio, experimentando cada centímetro de prazer que aquele lugar proporcionava. Mas chegou um tempo em que as coisas começaram a mudar. O visitante foi ficando meio enjoado daquilo. Já experimentara tudo, tantas vezes, que acabou caindo no tédio.
Então foi até o dono reclamar. Perguntou se não havia nada diferente para fazer. Quem sabe algum trabalhinho? E o dono lhe disse que a única proibição naquele lugar era essa: trabalhar. Então o visitante, transtornado, lhe disse:
- Não pode trabalhar nunca? Poxa, mas assim isso aqui vai virar um inferno!
- E onde você pensa que está? – disse o dono.

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