Hamilton de Andrade Lemos
Sexta-Feira, 2 de Maio 2008 - 22h6 Faço o comentário a pedidos. Falo do maluco que manteve a filha em cativeiro doméstico durante 24 anos e com ela teve 7 filhos.
Ouvi dizerem que este foi considerado o pior crime de todos os tempos. E porquê? Suspeito, primeiramente, que seja pelo fato de ser um crime com forte componente sexual, de violência de um pai contra sua filha.
Mais importante, porém, não é o que aconteceu dentro da casa daquela família, mas daquilo que não acontece em nossa casa e nem dentro de nós. Invertendo a sentença: por mais que ainda estejamos descendendo dos macacos e tenhamos descido das árvores ainda outro dia, sujeitos, portanto, aos instintos básicos, mantemos algumas regras e barreiras sobre o que podemos ou não fazer. Algumas destas barreiras são chamadas de tabus. E entre todos, há um fundamental, que se chama incesto.
Todas as culturas que conheço reconhecem este tabu. E seu fundamento científico não tem nada a ver com deterioração genética, mas com a necessidade do ser humano em se estabelecer em grupos estáveis, seguros e com papéis definidos. Assim, há o pai provedor e há a mãe zelosa, ambos protetores da prole e gerenciadores do bem-estar do grupo, chamado família.
Qualquer fato que questione este modelo, seja o pai tarado e estuprador de longa duração, seja o pai que supostamente jogou a menina pela janela, sejam as mães que têm abandonado bebês por aí, põem à prova nossas certezas mais cristalizadas.
Uma oportunidade para admitir que nem todo papai e toda mamãe correspondem ao que vemos na propaganda da televisão. E que há muitos porões ocultos, mesmo nas casas mais insuspeitas.