Jornal A CIDADE

Leia_A_cidade

Marcelo Canellas

Sabado, 3 de Maio 2008 - 14h50

Transamazônica


A Transamazônica corta um deserto de capim. De Altamira a Xinguara, no sul do Pará, são 520 km de campos vazios. Quando veio a estrada, foi-se a floresta. Eu era criança bem pequena, mas lembro de ouvir meu pai comentando sobre a grande rodovia que cortaria a selva.
Ainda retenho a imagem do ditador Emílio Garrastazu Médici debaixo de uma árvore imensa, cercado de tratores e aspones, cortando a fita da inauguração no começo da década de 1970. Mas não tenho certeza se vi na televisão, ao vivo, ou se a memória me engana, e o que vi foram imagens de arquivo anos depois. Tanto faz. Minha idéia infantil era de uma estrada sombreada, com macacos pendurados nas palmeiras e cipós tombando sobre a pista. Eu já sabia que a Transamazônica da minha infância era só uma fantasia. Mesmo assim levei um choque. Não há cipós nem macacos.
Não há palmeiras nem qualquer outra árvore em pé. Nas margens da via inacreditavelmente esburacada e enlameada, há muito pasto e pouco boi. De lado a lado vi, seguramente, alguns dos maiores latifúndios improdutivos do país. De dez em dez quilômetros há uma madeireira abandonada. Sugaram o que podiam, depois foram embora. Em Anapu, onde a missionária norte-americana Dorothy Stang foi assassinada por denunciar os abusos dos fazendeiros e madeireiros, faço a primeira parada.
Tomo um café na panificadora Bam Bam. Leio no quadro da parede: “Eu sou a luz do mundo, quem me segue não vê as trevas”. Sigo adiante. Em Pacajá, carvoarias fumegantes funcionam a pleno vapor. Avisto o Motel Requinte ao lado da funerária Zé do Caixão. E o Hotel do Gordo ao lado de outra funerária, a Pax Amazônica. Irônica convivência que sela o destino dos migrantes: vêm à Transamazônica para morrer. Procuro um lugar menos suspeito para dormir. Na placa está escrito: “Dormitório do Povo, R$ 15”. Bato palmas. Aparece a dona. Ela pede desculpas, mas só mexe com casal. “Não é hotel de bacana, moço.” Então viajo um pouco mais. O painel de sinalização aponta a direção: “siga para Ourilândia do Norte, onde o níquel é uma realidade!”. Decido tomar o rumo do sul, certo de que o caminho da fantasia seria muito melhor.



*Marcelo Canellas é jornalista e repórter especial da Rede Globo

  • Imprimir
  • Enviar

É proibida a reprodução do conteúdo dessa página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso sem autorização escrita da Empresa Jornalistica Orestes Lopes de Camargo S\A
ARZ