Especial
Sabado, 3 de Maio 2008 - 22h12
MULHERES EM ALTA 1 Maria Luísa, 18 anos contra a dengue
Quase duzentas mil pessoas, mais de um terço da população de Ribeirão Preto, podem ter contraído o vírus da dengue, ao longo dos últimos dezoito anos. A afirmação é de uma das maiores especialistas no combate à doença na região, uma profissional respeitada: a enfermeira Maria Luíza Santa Maria, diretora do Departamento de Vigilância em Saúde e Planejamento. Formada na USP-RP, ela enfrenta o Aedes Aegypti desde 1990, quando entrou no serviço público.
O trabalho que ela desenvolve em Ribeirão é reconhecido pelo Ministério da Saúde, entre os melhores do Brasil.
Para fazer tal afirmação, Maria Luíza Santa Maria baseou-se nos trabalhos do epidemiologista Amauri Lellis Dal Fabbro e do pesquisador de Moléstias Infecciosas Luiz Tadeu Figueiredo. Os dois professores da USP-RP aprofundaram estudos assegurando que para cada infectado, existem outros dez.
Como Ribeirão, em dezoito anos, registrou 18.442 casos positivos, multiplica-se esse número por dez para chegar ao total de 184.420 doentes.
Eu pergunto à Maria Luíza Santa Maria, como uma pessoa pode ter dengue sem perceber os sintomas da doença. Ela responde que é o que se chama de fator individual. E detalha:
- A dengue pode vir com manifestações claras, como febre, vômito, dores e até sinais hemorrágicos. Bem como pode vir totalmente assintomática e passar por uma gripe normal, que a pessoa não valoriza, não procura médico e nem vai ao posto de saúde. Às vezes, a pessoa nem sente. Esse caso inclui situação nutricional e doenças crônicas. Uma pessoa doente, mais fraca, sente bem mais os sintomas”.
A enfermeira Santa Maria afirma que os trabalhos desenvolvidos pelos professores Amauri Lellis e Luiz Tadeu comprovam realmente que para cada um doente, existem outros dez. Para ela, essa é um questão fechada.
Em seguida, ela pergunta se eu tive dengue. Respondo rápido: nunca!
Então ela sorri e me aconselha a fazer um exame.
-“Se fosse você, não teria tanta certeza. É complicado dizer que, em Ribeirão Preto, possa existir muita gente que não teve dengue”.
Exames
Para a diretora do Departamento de Vigilância em Saúde e Planejamento, seria salutar a população saber se teve dengue. É muito simples.
O teste Elisa é prático, realizado pelo Instituto Adolf Lutz. É rápido, é gratuito, pode ser feito em todas as unidades de saúde ou em laboratórios particulares, sem prescrição médica.
A pessoa corre o risco de contrair dengue hemorrágica numa segunda vez. Por isso, se souber que já foi acometida anteriormente, facilitará o tratamento.
“Em termos de auto-preservação - diz a enfermeira - quem teve dengue passaria a ter mais cuidado. Pensaria em olhar melhor sua casa, alertar um maior número de gente, passar a experiência adiante, o que sentiu, o que está sentindo. Enfim, iria se tornar um soldado no combate à doença. Em casa, evitaria a todo custo, criadores do mosquito”.
Susto
Maria Luíza Santa Maria admite que levou um susto quando somou os casos confirmados de dengue em Ribeirão em dezoito anos e multiplicou por dez.
“Nunca tinha feito essa conta, é assustadora”, disse, mas sem duvidar do trabalho dos médicos Amauri Lellis e Luiz Tadeu.
“Eles estudam a dengue 24 horas por dia”.
Uma doença cíclica
Nos últimos quatro anos, Ribeirão alternou bons, maus e péssimos momentos com a dengue. Em 2004, por exemplo, foram registrados apenas 46 casos.
No ano seguinte, tivemos 634. Em compensação, em 2006, no ápice da epidemia, tivemos 6.438 infectados. No ano passado, houve queda para 2.690 e, este ano, foram 524 casos.
Maria Luíza Santa Maria afirma que existem alguns fatores que influenciam diretamente na transmissão do vírus.
Dois deles são o fator individual (raça do indivíduo, idade, situação nutricional, doenças crônicas como a diabetes) e o fator contaminação (a pessoa já ter contraído dengue alguma vez). Outro fator, também importante, é a chuva.
Imunidade
Uma pessoa que pega a doença, tem imunidade específica para determinado vírus, que pode ser o sorotipo um, dois ou três. Quando se tem a transmissão de um sorotipo, isso vai se multiplicando na população e vai diminuindo o número de pessoas que estão sensíveis ao vírus. Então registra-se uma queda.
Em Ribeirão Preto, tivemos os sorotipos um, dois e três. O sorotipo quatro não existe no Brasil, pelo menos oficialmente, segundo a enfermeira. Há trabalhos, não reconhecidos, dando conta que podem ter ocorridos alguns casos no Norte.
Sobre o surto da doença, colabora também a situação epidemiológica, que é medida em razão da quantidade de vetores (a fêmea).
“Mas uma coisa importante na transmissão, quando se trata de sazonalidade, é a chuva, o clima. Quando a chuva começa forte em outubro, novembro, você tem aumento de casos em janeiro, fevereiro e março.
Sorotipo três
O sorotipo três, que está circulando na região, foi descoberto em 2003, em Ribeirão Preto. Antes dele, a partir de 1990, circularam os sorotipos um e dois.
Só do sorotipo três, temos onze mil casos. Multiplicando por dez, temos 120 mil infectados com esse vírus. Os mais de 60 mil sorotipos restantes são do um e do dois.
Santa Maria diz que o combate à dengue é sim trabalho do município, do estado e governo federal. Mas, antes de tudo, é um dever do cidadão.
Batatais dá bom exemplo Stone corpo
Há um ano e quatro meses sem registrar um caso de dengue, Batatais, pouco mais de 50 mil habitantes, é um bom exemplo.
A equipe de controle de vetores tem doze integrantes que trabalham juntos há dezoito anos. Estão bem entrosados. Mas contam com o apoio decisivo de 92 agentes de saúde do município.
Para se ter uma idéia do trabalho da Vigilância, no ano passado, cada um dos 18 mil imóveis de Batatais, foi vistoriado seis vezes.
“Isso é por causa do entrosamento entre os agentes de saúde e a Vigilância Sanitária. Não existe outra explicação. A mais nova do grupo sou eu, com quinze anos de trabalho”, diz Terezinha Penholato, a diretora da Vigilância Sanitária.
Quando os agentes encontram um imóvel fechado, deixam um telefone para contato. Se o aviso não for suficiente, eles tentam localizar as chaves em imobiliárias.
Na quarta-feira, quatro agentes trabalhavam no bairro Castelo, de classe média. Em quatro dias visitando quintais, encontraram apenas uma larva.
Santaaria é enfermeira e ajudou a criar esquema de combate
Maria Luíza Santa Maria, 47 anos, tem dois filhos. Formou-se enfermeira na USP-RP na turma de 83. Seu primeiro trabalho foi na Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas. Em 89 ingressou, através de concurso, na rede pública municipal, indo para a Vigilância Epidemiológica, onde permaneceu dez anos. Depois trabalhou na Divisão de Controle de Zoonoses. Em 2001, assumiu a chefia do Controle de Vetores. Em junho de 2006, passou a dirigir o Departamento de Vigilância em Saúde, que abrange a Vigilância Sanitária e Epidemiológica, a Divisão de Controle de Vetores, a Divisão de Zoonoses, o Programa DST-Aids, e os Programas de Imunização, de Tuberculose e Hanseníase.
À frente da batalha
O atual esquema de funcionamento do Controle de Vetores, ela ajudou a criar. Atualmente, Ribeirão Preto tem um verdadeiro exército de funcionários dedicados exclusivamente ao combate da dengue.
No total, são 282 servidores, que utilizam, diariamente, dez vans e um ônibus para deslocamentos. As frentes de trabalho são na rua (bloqueio e nebulização), pontos estratégicos (ferros-velhos, borracharias e oficinais mecânicas), imóveis fechados e notificação.
Ribeirão é dividida em cinco distritos no combate à dengue: norte (Quintino II), leste (Castelo Branco), sul (Vila Virgínia); oeste (Sumarezinho) e região Central.