Especial
Sabado, 3 de Maio 2008 - 22h14
O PROFESSOR VICTOR MIRSHAWKA HOJE 67 anos, 108 quilos em 1,90 m, boa carreira acadêmica e muitas lembranças do basquete
Quem vê o professor Victor Mirshawka, 67 anos, pelos corredores da Fundação Armando Álvares Penteado, em Ribeirão Preto, imagina que ele não tenha feito outra coisa na vida senão lecionar. Essa impressão é reforçada pelo uso de ternos escuros, óculos de grau e pela artrose que deformou seus pés e tornozelos. Por conta disso, caminha com dificuldade, levando 108 quilos em um corpanzil de 1,90m de altura, para lá e para cá.
Na verdade, bem poucos sabem que Victor Mirshawka, polonês de nascimento, foi um dos maiores jogadores do basquete brasileiro, junto com Amauri, Wlamir Marques, Mosquito e Sucar.
Defendendo a seleção brasileira em apenas três anos (61 a 64), foi campeão mundial em 63, no Rio; medalha de bronze nas Olimpíadas de Tóquio, em 64; e campeão Sul-Americano.
Como jogador de clube, tem muitos títulos estaduais, brasileiros e sul-americanos, especialmente com o Sírio. Também defendeu o Palmeiras e o Corinthians, por apenas três meses.
Numa época em quase nada se recebia (dinheiro) no basquete, considerado esporte olímpico amador, era preciso estudar e trabalhar. Victor formou-se em engenharia elétrica no Mackenzie, aos 24 anos, e escreveu, jovem ainda, sete livros de matemática. Era chamado pela imprensa de intelectual.
Essa diferença levou-o a optar pelo trabalho. Acabou desistindo, precocemente, da seleção brasileira. Não chegou nem mesmo a disputar o mundial no Uruguai, em 67, apesar dos apelos do técnico Togo Renan Soares, o Kanela.
“Tinha muitas viagens, treinamentos e não dava para conciliar com o trabalho. Então, preferi continuar jogando apenas em clubes”.
Hoje, se pudesse escolher, faria o caminho inverso. Defenderia até a exaustão a seleção brasileira e só depois pensaria em ganhar a vida.
“A juventude é uma só, é preciso aproveitá-la. Eu perdi parte da minha, ao abandonar a seleção”, diz o diretor cultural da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) e o responsável pelas palestras do ex-governador Paulo Egydio Martins e do empresário Romeu Chap Chap, em Ribeirão Preto.
Bi foi ganho há 45 anos
Em 1959, no Chile, o Brasil ganhou o primeiro título mundial de sua história. Na primeira quinzena de maio de 63, há 45 anos, o Brasil conquistou o bicampeonato.
A base do time de 63 era formada por Amauri, Wlamir, Rosa Branca, Sucar e Victor. O técnico Kanela (Togo Renan Soares) não usava os doze jogadores, como ocorre no basquete atual. Victor lembra que apenas Ubiratan e Mosquito participavam do revezamento. Craques extraordinários como Waldemar Blatkauskas (morto em 64 em acidente de carro), Jathir Scholl e Algodão entravam muito pouco. Naquele tempo não havia os 24 segundos de posse de bola. O time podia reter a bola o tempo que pudesse – ou quisesse.
O bi
O Brasil venceu os seis jogos que disputou: 62 a 55 em Porto Rico; 81 a 62 na Itália; 90 a 71 na Iugoslávia; 77 a 63 na França; 90 a 79 na União Soviética; e 85 a 81 nos EUA.
O “cestinha” da competição foi o soviético Petrov com 111 pontos; seguido de Amauri e Wlamir Marques (108). Victor foi o sétimo, com 90 pontos.
Uma das maiores partidas de Victor foi diante da União Soviética. Naqueles tempos, o basquete russo era bem mais forte e organizado que o americano.
Por isso, o jogo foi tido como uma decisão antecipada. Quem vencesse, ficaria com o título.
O “monstro”
Victor foi o cestinha da partida, com 27 pontos, e teria facilitado a vitória do Brasil em razão de uma imprevista e insólita discussão com um jogador adversário.
É que os russos não sabiam que Victor dominava o idioma. E durante o jogo, muito marcado e empurrado, começou a se exasperar.
“Aí, no primeiro tempo ainda, peguei o cara pela camisa e falei um monte pra ele. O cara quase desmaiou. Ele não imaginava que um brasileiro soubesse falar tão bem russo. O Maracanãzinho aplaudiu minha atitude”, conta. Depois disso, o Brasil tomou conta da partida.
Seleção “B”
Naquele mundial, os treinadores escolheram os dez jogadores com melhor desempenho, dividindo-os em duas seleções.
A seleção principal foi formada por Amauri, Wlamir, Daneu (Iugoslávia), Petrov (União Soviética) e Shipp (EUA).
O time “B” teve Victor, Dorigo (França), Volnov (União Soviética), Djurec (Iugoslávia) e Kojis (EUA).
Amauri e Wlamir foram os melhores
Victor é extremamente cuidadoso ao citar nomes dos melhores do basquete brasileiro, em todos os tempos.
Lembra que a modalidade sofreu grandes mudanças nas regras e nas táticas, como os três pontos, por exemplo.
Aponta Amauri com o melhor de todos. “Amauri era professor de Educação Física e jogava vôlei tão bem quanto basquete”. Wlamir vem a seguir. A dupla Amauri-Wlamir pode ser comparada a Hortência e Paula, no feminino. Nos tempos atuais, indicou Marcel e Oscar. Mas se lembrou de Ubiratan, Sucar, Mosquito, Algodão, Waldemar Baltkaukas, Pecente, Edward Simões e Hélio Rubens.
Os cinco times
Victor jogou 21 anos e um mês em apenas cinco times: Tietê, 3 anos; Sírio, 10; Palmeiras, 7; Corinthians, 3 meses; e Monte Líbano, dez meses.
O seu último jogo foi pelo Monte Líbano, em Franca. Ele ouviu um jovem jogador local, de nome Chuí, dizer “cada coisa que a gente tem que enfrentar”, referindo-se ao “velho” Victor, então com 35 anos. Triste, ele decidiu que era hora de parar. Mas se diz orgulhoso de ter jogado com atletas bem mais mais jovens como Cadú e Adílson.
Jânio Quadros
O presidente Jânio Quadros atrapalhou os planos de Victor. A naturalização tardia, impediu que ele disputasse o Mundial do Chile em 59 e a Olimpíada de Roma, em 60.
Deveria estar na equipe, como titular, mas a renúncia de Jânio Quadros, em agosto de 59, atrapalhou sua vida. Em razão disso, passaria a integrar a seleção sór de 61.
“O Jânio me tirou uma medalha de ouro, no Chile, e uma de bronze, em Roma”, brinca.
A infância na Ucrânia e o começo no Tietê, ajudado por Amauri
Victor Mirshawka nasceu em 27 de abril de 1941, em Tcherni, Polônia. As dificuldades da 2ª Guerra Mundial empurraram sua família para a União Soviética (Ucrânia), onde passou quatro anos e aprendeu o idioma.
“Nós ficamos retidos um tempão na Ucrânia. Queríamos sair, mas não deixavam”, disse.
Victor ainda não tinha completado nove anos quando desembarcou no Brasil, na condição de refugiado de guerra.
A família instalou-se em Campos (RJ). Dois anos depois, mudou-se para São Paulo. O garoto Victor começou no Tietê, em 55. Lá conheceu Amauri que abriu o caminho do basquete para ele. No Sírio, logo que chegou, atuou com Amauri, Celso, Eurico e Sucar.
No Palmeiras, durante sete anos, jogou com Édson Bispo dos Santos, Jathir, Laerte, Josíldo e Renzo, entre outros.
No Corinthians, numa excursão pela Itália, jogou num time fenomenal. A escalação era Wlamir, Amauri, Rosa Branca, Ubiratan e Victor. Jogavam também Mical e Renê.
O time do Corinthians era tão bom, diz Victor, que ganhou do Real Madri, em São Paulo, por 122 a 118, num jogo histórico, no Ibirapuera.
E o Real Madrid, no começo da década de 60, era um dos melhores do mundo. O atual técnico do Brasil, “Moncho” Gonzales, era um dos titulares da equipe espanhola.