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Sabado, 10 de Maio 2008 - 15h50

Fazendeiros criam mais de um milhão de cabeças fora da região

J.CIRILLO/ESPECIAL Fazendeiros criam mais de um milhão de cabeças fora da região CAMPEÃO DA RAÇA NELORE Elite da pecuária já foi combatida como uma praga ameaçadora: artigos foram publicados de 1917 a 1921, em guerra declarada aos mineiros

Benedito Carlos Dias, diretor do escritório da Defesa Agropecuária da Secretaria da Agricultura em Ribeirão Preto -Eda- acha que não tem mesmo como negar:
- Realmente a cana está avançando sobre as áreas de pastagens.
E os números confirmam: há cinco anos, 19 municípios próximos a Ribeirão tinham 170 mil cabeças de gado. Hoje são apenas 126 mil, uma redução do rebanho de mais de vinte por cento. Cajuru, nesse período, sofreu uma redução de dez mil cabeças. Houve quem vendesse o gado para arrendar as terras para a cana. Em Santa Rita do Passa Quatro, outrora área de pecuária, o rebanho perdeu 20 mil cabeças nos últimos cinco anos.
No entanto, a sede da principal central de inseminação artificial de bovinos da América Latina, a Lagoa da Serra, permanece instalada em Sertãozinho e os fazendeiros da região de Ribeirão Preto, a capital nacional da cana-de-açúcar, nunca, em toda sua história, tiveram tanto boi como atualmente.
Calcula-se que o número de cabeças já passa de um milhão. Só que este gado não está aqui, está longe: em Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e até na Amazônia, principalmente no sul do Pará.
Os fazendeiros da região plantam cana ou arrendam suas terras para as usinas e compram no Centro-Oeste ou no Norte para a criação extensiva de gado.
Muitos deles, com rebanhos nas invernadas do Centro-Oeste como Duda Biagi, Adir do Carmo Leonel, de Ribeirão Preto; Marcelo Mendonça, de Orlândia; Cláudia Junqueira, de Ituverava, são também os criadores do chamado gado caro, o nelore de elite, onde nos leilões uma rês pode até chegar a ser vendida por mais de R$ 3 milhões, como aconteceu recentemente em Avaré.

A boa notícia: vem aí sangue novo da Índia
Por causa da proibição da importação de gado indiano a partir de 1962, o Nelore brasileiro, que representa 80% do rebanho nacional, acabou ficando reduzido praticamente a apenas quatro linhagens de reprodutores: as dos touros Ludi; Dezesseis Quarenta e Seis; Iguaçu e Visual.
O veterinário Arnaldo Borges, o Arnaldinho de Uberaba, considerado um dos maiores especialistas em gado zebu do Brasil, explica o risco que isso representa para a pecuária nacional:
- O sangue do Nelore brasileiro está ficando “fechado”, muitos animais já têm a genética dos quatro touros. Isso provoca o problema da consangüinidade com reflexos importantes para a produtividade. O gado perde em fertilidade, desenvolvimento corporal, rusticidade e até em habilidade maternal.
Alertado por técnicos e políticos da bancada ruralista, em duas visitas que fez à Índia, o presidente Lula tratou pessoalmente do problema e conseguiu a liberação da importação do material genético do zebu para o Brasil.

NEGÓCIO DA ÍNDIA
Mas muito antes, há 11 anos, já antevendo o problema da consangüinidade, pecuaristas compraram pequenas fazendas e animais na Índia e iniciaram o processo de seleção já pensando numa possível abertura da importação.
O deputado federal pelo Paraná, Aberlardo Luiz Lupion, que também é fazendeiro e que com outros pecuaristas também comprou terra e gado na Índia lembra:
- Fizemos um trabalho muito criterioso. Percorremos uma infinidade de aldeias para comprar o que tinha de melhor. Foi difícil porque os criadores indianos não queriam vender os animais. Mas mesmo assim conseguimos montar uma base de plantel.
E é desse gado zebu indiano selecionado pelos brasileiros que serão exportados cerca de 300 embriões para o Brasil. Além do nelore, virão também embriões das raças gir e guzerá.

BARRIGA DE ALUGUEL
O material congelado chegará de avião, em botijões de nitrogênio e, em seguida, seguirá para um laboratório do Ministério da Agricultura, em Minas Gerais. Lá, os embriões serão implantadas em vacas de barriga de aluguel. E após uma quarentena, sempre com a supervisão do Ministério da Agricultura e da Embrapa, os animais implantados seguirão para as fazendas. Os machos serão selecionados: os de qualidade inferior serão castrados. Com os novos embriões de zebu da Índia, Arnaldinho diz que haverá um importante “refrescamento de sangue” do rebanho zebuíno nacional.
- Mais do que isso, vai abrir novas famílias. Isso é importante para a produção de animais de excelência.
Há previsão de que com o aumento de consumo na China, a produção de carne mundial vai ter que dobrar em 30 anos. Para enfrentar o desafio de manter-se na ponta das exportações, os brasileiros vão precisar dessa excelência indiana.

PAI DE 3.500 FILHOS
O negócio do Nelore de elite cresceu vertiginosamente. Hoje, a comercialização não se restringe apenas à venda de animais, mas também à de sêmen e embriões. O preço médio de um embrião de nelore fino tem girado em torno de R$ 30 mil e o de uma ampola de sêmen, que corresponde a uma carga de uma caneta esferográfica, pode chegar a R$ 5 mil.
É o caso da ampola do touro Kavardi que veio da Índia em 1962. Resta pouco material genético dele. Por isso, paga-se até R$ 12 mil por apenas uma dose de seu sêmen.
Ricardo Abreu, da Central de Inseminação da Lagoa da Serra, em Sertãozinho, explica que cada ejaculada do touro, sempre em vagina artificial, produz cerca de 400 doses. E um dos touros mais antigos do Brasil, o Fajardo, ainda está em ação. Pai de grandes campeões, ele está com 16 anos e já produziu mais de 460 mil doses. Por isso estima-se que tenha mais de 3.500 filhos.

‘Uma conversa sobre gado pode durar a noite inteira’
O engenheiro agrônomo Eduardo Biagi, o Duda, ao contrário de muitos fazendeiros, só não arrenda suas terras na região por um motivo muito simples: ele também é usineiro, um dos donos da Usina da Pedra, em Serrana. Tem cerca de 30 mil cabeças de gado em 27 mil hectares no Mato Grosso e também cria aqui na região, em regime de cocheira, o gado Nelore de elite.
Como o gado fino não precisa de grande área para ser criado, já que vive em regime de semiconfinamento, ainda é possível mantê-lo na região de Ribeirão.
Duda, que começou a criar gado assim que se formou, em 1971 é vice-presidente da Associação Brasileira de Criadores de Nelore e administra, portanto, dois rentáveis negócios do agronegócio brasileiro: cana e gado.
Ele explica que o negócio da cana, por causa das possibilidades de exportação do etanol, tem naturalmente uma perspectiva muito maior. Mas destaca que o negócio de gado também é bom e com uma outra vantagem muito importante: é mais prazeroso.
- O prazer é incomparável. Entre os criadores você conhece pessoas interessantíssimas, os bate-papos são divertidos... Você vê nascer o bezerro, vai para exposição disputar prêmios, tem muito mais emoção. Uma conversa sobre cana não dura mais que cinco minutos, sobre gado pode durar horas, varar a noite.
Há quinze anos, quando era vice-presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, a ABCZ, Duda criou o ranking do nelore, um sistema que soma resultados de todas as exposições do país, premiando animais, criadores e expositores.
O ranking do Nelore injetou ânimo no negócio acirrando a disputa pelo desenvolvimento genético ou compra dos melhores animais da raça. Um prêmio da Expoinel de Uberaba, a exposição nacional do gado Nelore, é a glória de qualquer criador. Um prêmio que não só vale troféu, mas também muito dinheiro. Do dia para a noite um campeão em Uberaba ganha status e valor.
- Com as novas tecnologias incorporadas pelos criadores de gado de elite, como a inseminação artificial, a transferência de embriões, e a fertilização in vitro, o negócio ganhou uma velocidade incrível. Em outros tempos, um criador para “fazer” um gado bom levaria 30 anos. Hoje, se dispuser de recursos e tecnologia pode “fazer” em três anos.
Lembra os exemplos de Norival Bonamichi, dono da Ouro Fino e do ex-governador Orestes Quércia que criam nelore de elite na região e que em poucos anos conseguiram formar um ótimo gado para exposições e leilões.

CÉU DE BRIGADEIRO
No caso de Bonamichi, ele tem motivo de sobra para comemoração: na quarta-feira passada, a vaca Orta da Genebra, de seu plantel, foi eleita em Uberaba a Matriz Modelo da Raça Nelore na Expozebu 2008.
Duda explica que a criação extensiva de gado de corte tem pouco a ver com a criação de Nelore de elite, apenas um ponto em comum:
- São dois mercados, clientes diferentes. A criação extensiva vive do preço da arroba, e a de Nelore de elite da qualidade genética dos animais. O único ponto de ligação entre esses dois mercados é a venda de tourinhos dos criadores de elite para os criadores extensivos. E isso é importante, porque é nesse momento que se transmite boa genética para toda a criação nacional.
Mas se o mercado da criação do gado de pasto pode viver as aflições das ocilações do preço da arroba, o do boi “fino” vive sempre em céu de brigadeiro.
- Eu não me lembro de nenhuma crise no mercado de gado de elite, o negócio só cresce.

Pereira Barreto fez a Guerra do Zebu
Um dos episódios mais interessantes sobre a importação da raça zebu da Índia, envolveu um médico famoso de Ribeirão Preto: Luiz Pereira Barreto. Ele foi um dos líderes da famosa “Guerra do Zebu”, principalmente contra os mineiros.
A batalha durou duas décadas entre pecuaristas e políticos, provocando debates acalorados através da imprensa.
Entre 1917 e 1921 o dr. Luiz Pereira Barreto publicou uma série de artigos no jornal “O Estado de S. Paulo”, desancando a raça zebu. Elencava uma série de argumentos contra o gado vindo da Índia. Dizia que o zebu era “selvagem, impossível de domesticar”; que “a carne tem catinga: é carniça” e ainda que “os europeus só a comeram durante a guerra porque tinham fome, é um verdadeiro bicho.”
Quanto aos criadores mineiros o tom não era mais leve: são chamados de “boiadeiros e não criadores”, “levianos” e “velhacos”, “verdadeiros passadores de notas falsas”.
Embora de origem européia, a campanha dos paulistas dava um toma nacionalista à criação do Caracu, considerado por eles então genuinamente nacional.
Por seu lado os defensores do zebu, principalmente os mineiros, contra-atacavam enaltecendo as características da raça adaptadas ao clima tropical, resistência às doenças, rusticidade, fecundidade precoce e rendimento econômico.
Do doutor Pereira Barreto disseram, sem papas na língua, que ele “ou era ignorante ou agia de má-fé, talvez até a serviço do imperialismo inglês”, cujos interesses dominaram o Brasil durante a Primeira República.
Alfinetavam os paulistas dizendo que a riqueza do Triângulo Mineiro servia para tapar os rombos abertos dos cofres públicos causado pela proteção ao café, em clara referência ao principal produto da lavoura paulista.
Até hoje é lembrada a frase de um velho fazendeiro do Triângulo, o coronel Horácio Lemos. Disse ele: “nessa região deveria ser erguido um monumento a Pereira Barreto porque sua campanha impediu que os campos paulistas se enchessem do gado zebu, trazendo riqueza ao Triângulo, que passou a abastecer os frigoríficos paulistas.”
Mais tarde, em 1938, o jornalista Assis Chateaubriand, em artigo no Diário de S. Paulo dava razão aos mineiros, chamando o dr. Pereira Barreto de “lírico”, alegando que sua campanha conta o zebu dera “um prejuízo a São Paulo de mais de um milhão”.
Hoje, os números mostram: os mineiros tinham razão e o zebu venceu a guerra. Os conservadores que combatiam a vinda para o Brasil do “gado selvagem da Índia” foram fragorosamente derrotados. Hoje, oitenta por cento do gado brasileiro é zebu - e a grande maioria da raça nelore, o gado criado pelos fazendeiros da região no Centro-Oeste e Norte do país.

Fazendeira de Ribeirão deixou goiano rico e feliz
Sebastião Cruvinel, um homem de 55 anos, abandonou a advocacia na praça de Rio Verde, em Goiás, por causa de uma vaca nelore, a Conchita.
Ganhou muito dinheiro com ela e trocou o escritório pela fazenda.
Hoje Conchita está velha, com 19 anos e não produz mais. Mas continua no pasto - essa vaca Sebastião não vai matar nunca, ela lhe deu fama e dinheiro.
- Ninguém me conhecia, hoje todo mundo me conhece por causa dela.
Tudo aconteceu numa noite quando Cruvinel já se preparava para dormir e o telefone tocou. Era uma fazendeira de Ribeirão, Elza Consoni Guimarães, dona de gado em Goiás, informando que ia vender um lote de 26 novilhas.
No outro dia cedo Sebastião partiu para a fazenda da mulher.
- No meio da novilhada eu vi uma, de uns 15 meses, que até era das mais feias. Só que era mais desenvolvida, comprida, pescoço lançado. Aí pensei: acho que vou fazer um gado diferente. Fechei negócio rapidinho e paguei o equivalente hoje a R$ 2 mil pela novilha.
No começo a coisa deu errado: um touro de pasto, sem nenhum pedigree pulou a cerca e “cobriu” a Conchita. O bezerro morreu. Mas o azar parou aí, depois só veio sorte: Conchita foi a primeira do ranking da Associação dos Criadores de Nelore em 1998 e produziu filhas campeãs.
Sebastião Cruvinel calcula que a produção da Conchita, 23 fêmeas e 27 machos, lhe rendeu cerca de R$ 20 milhões, o que lhe permitiu comprar uma fazenda para cada um dos três filhos e ainda viver como gosta, na lida de gado.
- Na vida a gente precisa de sorte. A Conchita foi a minha loteria.

JOÃO GARCIA

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