Jornal A CIDADE

Leia_A_cidade

Especial

Sabado, 10 de Maio 2008 - 16h20

RP teria US$ 2 milhões em daime

Sidnei Quartier
WEBER SIAN RP teria US$ 2 milhões em daime PELICANO MOSTRA O CHÁ, GUARDADO EM GALÕES DE PLÁSTICO “Ritual alucinógeno não tem nada a ver com a nossa doutrina”

Em moeda norte-americana, são quase US$ 2 milhões. Ou R$ 3,3 milhões. Este poderia ser o valor do daime, o chá da religião do Santo Daime, que o Centro Fluente Luz Universal Pedro Nunes Costa mantém em prosaicos garrafões de plástico, em Ribeirão Preto. O Centro fica num condomínio fechado no Jardim El Dourado, zona leste.
É lá, numa pequena e simpática igreja, que cerca de oitenta daimistas reúnem-se para cânticos de hinos e consumo da bebida, a cada quinze dias ou em comemorações especiais.
“Mil dólares a dose do daime, só pode ser brincadeira” surpreende-se o dirigente da igreja ribeirão-pretana, o cartunista Pelicano, batizado César Augusto Vilas Boas, há 55 anos, em Jandaia do Sul (PR), onde nasceu.
“Não sabia que estava valendo tanto. Aqui, nós solicitamos, como contribuição, apenas R$ 25,00 por dose e enviamos quase todo o dinheiro para a sede da Igreja, no Céu de Mapiá, no Amazonas”, explica Pelicano.
A especulação sobre o valor da dose do daime surgiu na Folha de São Paulo de segunda-feira passada (5). O repórter-fotográfico Antônio Gaudério esteve recentemente em Juruá, no Acre, e relatou ter visto turistas estrangeiros pagando até US$ 1.000 para provar o daime, num ritual que chamou de alucinógeno.
Mas na matéria, o fotógrafo esclarece que na conta estão incluídas as despesas com pouso, alimentação e barco. Na reportagem, também é abordada a possibilidade de o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional) “tombar” o ayhuasca (o ato de tomar chá).
Pelicano, ético, disse não ter lido a reportagem e não quis comentá-la. Mas espantou-se ao ler o título: Turista paga US$ 1.000 para provar daime”.
“Ritual alucinógeno também não tem nada a ver com a nossa doutrina”, avisa.
O Centro de Ribeirão tem, hoje, reserva de 200 litros de daime, o correspondente a duas mil doses, suficiente para os rituais até o final do ano.
Pelicano não acredita que o processo de valorização financeiro do chá possa torná-lo comercialmente viável. Na sua opinião, o daime, sem o cerimonial religioso, os cânticos, os hinos e orações, não funciona.
“O daime não é apenas sentar, beber e esperar as reações. Seu consumo exige toda uma preparação, uma boa dose de espiritualidade”. Pelicano acredita que o Conselho Nacional Antidrogas (Conad) não liberaria o daime para vendas em estabelecimentos comerciais.

Santo Daime nasceu na Amazônia e chegou em RP em 93
O Santo Daime começou nos anos 30/40, com Raimundo Irineu Serra, um neto de escravos, no meio da floresta amazônica. Foi ele, segundo a Igreja, quem recebeu a revelação de uma doutrina de cunho cristão, depois de tomar o ayahuasca, o chá do daime, feito de um cipó conhecido como jagube. Mas o Santo Daime começou a ser conhecido, nacionalmente, apenas no início da década de 70.
Em 74, foi criado o Centro Eclético da Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra, em Vila do Mapiá, na divisa dos municípios de Boca do Acre e Pauini (AM). Em 93, teve início a implantação de Centros em várias regiões do Brasil, especialmente no Sul.
Foi neste ano que o cartunista Pelicano tornou-se daimista, influenciado por seu irmão Glauco Villas Boas, paranense de Jandaia do Sul e cartunista da Folha de São Paulo. Hoje, Pelicano é o único dirigente da igreja de Ribeirão, que tem perto de 80 adeptos. Mas, na região, são muitos os daimistas. Dezenas deles deixaram, por algum motivo, de freqüentar os rituais. Outros mudaram-se e há os que estão “dando um tempo”.

Chá daime de RP já é ‘exportado’
O jagube, cipó que produz o chá, e seu feitio, pelo menos em Ribeirão Preto não são novidades. Atualmente, o daime aqui consumido, é original de Ribeirão mesmo. As primeiras mudas chegaram por volta de 1993, sem grandes expectativas. Em cinco anos, para surpresa geral, tornaram-se adultas e estavam prontas para ser colhidas e transformadas em daime.
A plantação expandiu-se e ocupa boa parte da chácara de cerca de três mil metros quadrados, onde funcionam a igreja e o Centro Fluente Luz Universal Pedro Nunes Costa.
Ribeirão passou a produzir o seu próprio chá há mais de seis anos. Apenas o homem que manipula o cipó (jagube) vem de fora. É Pedro Nunes Costa, que aliás batiza o Centro.
Costa vem a Ribeirão uma vez por ano. Há todo um ritual na manipulação do daime e existem vários segredos que apenas o amazonense Costa domina.
O jagube, cipó que produz o chá e as folhas rainhas, que são introduzidas no processo de fermentação, se adaptaram bem ao solo de Ribeirão Preto.
“Nossas terras são tão boas, que estamos até mandando o jagube para São Paulo, onde meu irmão (o cartunista Glauco Villas Boas) cuida de uma igreja com mais de 400 daimistas.

A plantação e o ritual
A vinda anual de Pedro Nunes Costa a Ribeirão é cercada de expectativa. Ele vem de Céu de Mapiá (AM) especialmente para produzir o chá.
O tempo do feitio da bebida, dependendo da quantidade, pode durar de sete a dez dias. O normal é a produção de 300 a 500 litros.
Primeiro, o cipó é cortado pedaços de meio metro. Durante bom tempo, doze daimistas, com pequenos porretes, maceram o jagube.
Depois desse ritual, ele é passado em máquina e transformado em pó.
Em seguida, é colocado para ferver num grande fogão a lenha, com cinco bocas.
A manipulação, em panelas de alumínio, é feita exclusivamente pelo visitante, que então adiciona as folhas rainhas.
O melhor jagube
O jagube de Ribeirão é comparado ao produzido no Amazonas, pela maneira rápida com que cresce e pela qualidade do chá que produz.
Os daimistas pagam R$ 25,00 pelo consumo de duas doses (a medida usada é o antigo copinho de cachaça) durante os ritos.
Do total, R$ 15 são mandados para Céu do Mapiá, onde vivem mais de 600 pessoas, e onde moram os descendentes dos fundadores do Santo Daime.
Cinco reais ficam com a Igreja e os cinco reais restantes são investidos na plantação de jagube e folha rainha.

Tombamento
Já sobre o propalado “tombamento” da ayahuasca – o ato de tomar o chá - pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que começa a ganhar força no Ministério da Cultura, será bem recebido, na opinião de Pelicano.
“O tombamento certamente fortaleceria a doutrina, valorizaria o patrimônio. Tornaria possível uma expansão mais eficiente da religião, para os Estados Unidos e Europa”, acredita o dirigente ribeirão-pretano.

Conheça as principais datas festivas do Daime
As reuniões normais são feitas quinzenalmente, com a participação de todos, inclusive novatos. Já as reuniões festivas são permitidas apenas aos fardados.
As principais datas das festivas são o Dia de Reis, em 5 de janeiro; São Sebastião, dia 19; dia de São José, em 18 de março; quinta-feira Santa, quando se realiza o Hinário dos Mortos; Sexta-feira Santa; e hoje, segundo domingo de maio, Dia das Mães.
As principais festas mais concorridas são em junho: 12, Santo Antônio; 23, São João; e 28, São Pedro. Em seis de outubro, comemora-se o aniversário do padrinho Sebastião (fundador); 7 de dezembro, N.S. da Conceição: 14, aniversário do padrinho Irineu (fundador); 24, Nascimento de Cristo; e 31, Ano Novo.

Na primeira dose, o daime purifica
O Santo Daime é uma doutrina ou religião aberta a todos. Desde católicos a umbandistas, passando por espíritas, protestantes, evangélicos e budistas. Para freqüentar a igreja, basta ao interessado preencher o que eles chamam de anamnese.
Na anamnese, a pessoa descreve suas inquietações e doenças (se tiver), se toma remédio tarja preta, se é viciado em drogas - quais tipos de drogas - além de outras informações de cunho pessoal.
No período de adaptação, o novato participa de rituais quinzenais, com duração média de três horas, acompanhada de cânticos de hinos, orações e duas doses de daime.
Só depois de um bom tempo, quando mostrar suas afinidades com a doutrina, é que poderá tornar-se fardado. Como fardado, terá direito a participar de todas as festas da igreja
Chama-se fardado, porque deve comparecer aos rituais vestido de terno branco, gravata azul e uma estrela de metal dourada no paletó. As mulheres usam saias brancas longas e, sobre elas, saias verdes mais curtas.

A 1ª dose
A primeira dose do daime costuma purificar, limpar a pessoa, explica Pelicano. É raro quem não tenha acesso de vômitos. Depois, vem o rápido período de adaptação. A partir da quinta dose, é possível a integração entre o principiante e o daime, já em condições de “viajar”.
“Depende do grau de espiritualidade de cada um. Tem pessoa que embala apenas com o cântico dos hinos”, diz Pelicano.
Reconhecidamente uma pessoa séria, Pelicano conta que existe um daime chamado mel. Trata-se de um chá muito forte. Geralmente, é oferecido aos doentes de câncer ou Aids. E Pelicano afirma que os enfermos, ao longo do tempo, acabam experimentando melhoras.
“O lado espiritual ajuda muito”, admite o dirigente.

No morro, Glauco cria o cacique Jaraguá
A regional de São Paulo tem nove Centros, inclusive um em Camanducaia (MG) e outro em Londrina (PR). O maior deles é o Céu de Maria, com igreja instalada no Morro Santa Fé, ao lado do Pico do Jaraguá. O Céu de Maria tem como dirigente o cartunista Glauco, irmão de Pelicano.
O Céu de Maria é freqüentado por mais de 400 adeptos que, no intervalo dos rituais, curtem a linda vista. De lá, à noite, vê-se bom trecho da avenida Paulista.
E foi no Céu de Maria, meditando e tomando o daime produzido em Ribeirão Preto, que Glauco criou a tira Cacique Jaraguá, em que índios (guaranis, que habitaram o Jaraguá) atiram flechas na avenida Paulista.
Glauco Vilas Boas leu a matéria do repórter-fotográfico Antonio Gauderio e disse que o título da matéria “Turista paga US$ 1000 para tomar daime” não condiz com a realidade do texto.
“A matéria explica que se trata de um pacote turístico, incluindo o chá”. O cartunista explicou que no vale do Juruá, Acre, pratica-se o experimento da ayahuasca, que nada tem a ver com o Santo Daime”.

  • Imprimir
  • Enviar

É proibida a reprodução do conteúdo dessa página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso sem autorização escrita da Empresa Jornalistica Orestes Lopes de Camargo S\A
ARZ