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Classe A

Sabado, 10 de Maio 2008 - 17h41

O cientista que une as pontas do divã e do remédio

MATHEUS URENHA O cientista que une as pontas do divã e do remédio

Eler não pára: aos 68 anos, o professor aposentado da USP de Ribeirão Preto, Frederico Guilherme Graeff continua trabalhando com entusiasmo na Faculdade de Medicina. Não poderia ser diferente. Graeff, que tem pós-graduação em Oxford (Inglaterra) e Harvard (Estados Unidos), é um dos pioneiros nas pesquisas da neuropsicofarmacologia, estudando os efeitos dos medicamentos e sua atuação no controle de distúrbios psiquiátricos. Especialista em doença do pânico, ele acredita que a psicanálise tem condições de controlar a maior parte dos distúrbios de comportamento. E afirma que a neuroimagem e a genética são os grande aliados no desenvolvimento das pesquisas no setor. A primeira permite acompanhar as reações aos tratamentos e a segunda pode garantir um trabalho de prevenção, na medida em que antecipa potenciais e possíveis distúrbios psiquiátricos e de comportamento, ao longo da vida. Tudo isso ele conta, entre discreto e entusiasmado, e às vezes extremamente modesto para quem foi o primeiro a ganhar, em Ribeirão Preto, um prêmio Jabuti na área de Ciências.

Hélio Pellisari– Seu pai era médico. Era generalista ou tinha alguma especialização?
Frederico Graeff– Ele era generalista, mas durante uma boa fase ele foi diretor de um hospital de tuberculose, então seria [especializado em] tisiologia. Pneumologia e tisiologia em particular. Mas na época dele os médicos eram generalistas. Ele se formou em 1923, eu acho. Naquela época a formação era geral. Ele faziam tudo, faziam parto.
Hélio – Como o senhor escolheu a psiquiatria?
Frederico – Isso foi muito por influência do professor de psiquiatria que nós tivemos, o chileno Hernando Alonso, que até recentemente vinha a Ribeirão Preto supervisionar a Sociedade de Psicanálise [de Ribeirão Preto], ele era psicanalista. Mas antes disto eu já tinha lido livros sobre psiquiatria, inclusive o meu avô Phydias Martins Bonilha me deu uma coleção de obras completas do Freud, quando eu era jovem. Ele inclusive foi um dos fundadores da escola de odontologia de Araraquara, que hoje pertence à Unesp.

Hélio – Aí o senhor se decidiu pela psiquiatria?
Frederico – A psicanálise tem uma perspectiva bem diferente das outras ciências. Isso provocou bastante polêmica durante o curso, os alunos tinham dificuldade de aceitar e isso acendeu um certo interesse grande. Por outro lado, por influência de outros professores eu fiquei muito interessado no sistema nervoso, desde o primeiro ano, com as aulas do professor Lucien Lison , um dos fundadores da Filosofia. Ele dava aulas de anatomia do sistema central, neuroanatomia e eram aulas brilhantes. Ele era espetacular e inclusive representava os quadros das doenças neurológicas, como ator: andava como uma pessoa que tinha doença de Parkinson e isso impressionava muito. Outro professor muito querido era o professor Miguel Rolando Covian, foi um dos núcleos dos fundadores do núcleo de fisiologia, , ele foi discípulo de um prêmio Nobel , Bernardo Holssay, um dos poucos prêmios Nobel da América Latina. A Argentina tem dois em ciências e outro em literatura e da Paz, o Brasil não tem nenhum. E ele era professor de neurofisiologia. A neurofisiologia dele era muito voltada para comportamento. Durante toda a minha vida fiquei procurando juntar essas peças, entre a psicanálise e a farmacologia.

Hélio – Quando o senhor começou não existiam pesquisas farmacológicas nesta área?
Frederico – Em psiquiatria não existia quase pesquisa nenhuma. A brasileira é atualmente uma área pulsante que está se desenvolvendo muito, e, curiosamente na última avaliação do presidente da Caps , em termos de desenvolvimento foi a maior. Porque tinha pouco, se você tinha uma e passa a ter duas é muito. Em outras áreas se você tem 99 é um por cento, mas isto mostra que há uma tendência muito forte destacando o Brasil no contexto mundial. Eu tenho ido muito à Argentina em congressos e isto não está acontecendo lá. A psiquiatria brasileira teve uma virada muito grande nos últimos 10 anos.

Hélio – O senhor trabalhou no desenvolvimento de pesquisas neurológicas envolvendo animais?
Frederico – No meu caso eu trabalhei só com animais durante muito tempo. Eu comecei a fazer pesquisa em 1964 e até 1980, não tinha nenhum trabalho publicado com seres humanos. Só em 1980 comecei esta linha em colaboração com o atual chefe da psiquiatria que é o Antonio Zuardi, na ocasião trabalhava em Campinas, este trabalho foi feito em Campinas. Foi o primeiro em que se utilizou,de que eu participei, o método de ansiedade experimental em pessoas sadias. Por sorte, o professor Zuardi veio para cá e associado a ele nós fundamos um laboratório de pesquisa- o primeiro em psiquiatria, que até hoje está funcionando. Depois com a colaboração do farmacologista Francisco Silveira Guimarães, esteve na Inglaterra em Manchester e aí foi o núcleo gerador desta pesquisa. A partir do final da década de 90 começa a aparecer o trabalho experimental em pacientes sobre pânico e agora também o chamado Transtorno de Ansiedade Social. E também apareceram pesquisas de outra natureza sobre o efeito de medicamentos, pesquisas clínicas, mas também estruturadas.

Hélio – A pesquisa animal foi fundamental?
Frederico – Claro por que tinha muita coisa que não se podia fazer com o ser humano e agora tem também a neuroimagem, algumas coisas já se pode fazer, mas mesmo assim há muitas limitações, então para responder a determinadas perguntas sobre mecanismo de reação de medicamentos, quais as áreas do celebro que tinham reação a determinados medicamentos, os modelos animais eram e ainda são imprescindíveis. Na verdade, neste ponto da ansiedade as teorias que até hoje são as mais aceitas nasceram da pesquisa animal. A pesquisa clínica, a neuroimagem e a genética estão comprovando ou modificando, mas trabalhando em cima destas idéias. Todas as pesquisas da chamada área de interesse, da ansiedade pertencem a um sistema, uma série de estruturas cerebrais que controlam o comportamento emocional. Já na década de 30 tinham o modelo do processamento das emoções. Sempre existiram dados clínicos, por exemplo, sobre epilepsia, lesões, mas o fundamental, a sistematização do conhecimento se deu com a pesquisa com animais em laboratório.

Hélio – Até o estudo das síndromes?

Frederico – Os animais não tem síndromes, eles têm comportamento que a gente pode achar que envolvem os mesmo processos cerebrais que estariam envolvidos no pânico. Aí você faz teorias que precisam ser comprovadas. São os chamados modelos animais de psicopatologia. Os modelos animais são usados nas pesquisas médicas em geral. Quem quer estudar pressão alta, você vai estudar animais que tem pressão alta, por alguma manipulação por medicamentos ou genéticas e usa aquele animal para estudar, mecanismos etc. Na parte de psicopatologia é mais complicado, porque no caso da pressão arterial você está vendo pressão arterial no animal e no homem, no caso da psicopatologia os animais não tem estas manifestações. O grau de inferência é muito maior. Embora possa parecer estranho, o uso de modelos animais nesse tipo de coisa é importante e continuará sendo por um bom tempo. O Brasil evolui muito nesta área, hoje é um dos paises líderes na chamada neurociência comportamental, e países que criaram escolas de pesquisa, que usam a análise rigorosa de comportamento e também associada ao estudo do sistema nervoso central.

Hélio – O Brasil é um país de ponta nessa área?
Frederico – Se não é de ponta, é respeitado. Inclusive teve um pesquisador muito sério que estuda esta área e que publicou um estudo das áreas em que o Brasil tem um impacto internacional. Entre essas áreas, destacou as neurociências. Tudo relacionado com comportamento. Isso é uma coisa importante.

Hélio – O senhor estudou a síndrome do pânico e a Síndrome de Transtorno de Ansiedade Social. Como estão estas áreas?
Frederico – Eu estudei mais a síndrome do pânico. Atualmente existe um grupo que é coordenado pelo dr. José Cripa que está estudando a ansiedade social.

Hélio – As modificações na sociedade fazem crescer a ansiedade? Ou não existe relação?
Frederico - Ter tem. É aquela história. Todo estes transtornos tem muitos determinantes. Então eles não são exclusivamente genéticos, nem exclusivamente apreendidos , nem exclusivamente fruto de tensões sociais, mas tudo colabora de alguma maneira. Ter o celebro mais vunerável facilita. Isso em parte se deve à genética, mas em parte por exemplo, se deve ao que você comeu, à infecção que você teve antes de nascer, há uma série de fatores, o que a gente chama de constituição. É uma maneira do cérebro funcionar. Agora este cérebro, com esta constituição, submetido a determinados fatores externos de maneiras mais variadas de natureza psicológica, pode ser física também, muito frio, calor, privações, traumas, etc, isso tudo resulta em algumas pessoas em transtornos que a psiquiatria classifica de entidades de diagnóstico. Então é uma interação. Em determinadas épocas, como , que é uma coisa óbvia, se tem uma guerra , aumenta muito o transtorno traumático. O furacão em Nova Orleans aumentou os traumas. Isto é uma coisa óbvia. Mas o número de pessoas estressadas nos últimos anos está crescendo, pelo estilo de vida que estamos tendo. Ora o estresse favorece uma série destes transtornos, o estresse crônico pode levar à depressão. O estresse agudo leva a transtorno de ansiedade generalizada, pode levar ao pânico, precipita surto de esquizofrenia, que tem um componente genético importante, mas para precipitar o surto, o estresse pode ser importante. É aquela história, há um combinado de fatores.

Hélio – Muitas vezes é exposta a uma situação de pânico, mas isto não significa que ela possa ter uma síndrome de pânico?
Frederico – Tem que haver uma combinação de suscetibilidade com uma agressão. Aí você pode gerar isto. Duas pessoas, sofrendo a mesma influência, uma pode ficar com transtorno e outra não. Uma sofre traumas muito maiores e outra não. Uma tem , o que se chama resiliência, capacidade de enfrentar, outra não. Isto tudo pode ser também fruto da educação. O desenvolvimento é muito importante. Uma das coisas mais importantes para criar esta capacidade é o desenvolvimento da auto-estima. Esta é uma área de desenvolvimento.

Hélio – Isso ajuda a superar um trauma?
Frederico – A auto-estima é central. Uma das coisas muito importante na educação infantil é desenvolver a auto- estima. Isto é como se fosse uma vacina contra efeitos do estresse. Isto depende muito do ambiente. Da interação pessoal , das relações afetivas que a criança faz com os pais, os professores. Este fenômenos são bastante complexos e de diversas naturezas. Grande parte dos problemas que a área teve foi a tentativa de querer explicar tudo por um fator só, o que a gente chama de reducionismo. Reduzir a uma coisa só. Então a questão, psicológica, social. Isto não é assim estamos aprendendo que é fruto de uma interação. E também as abordagens para melhorar a situação são de natureza diferente. Você pode manejar o ambiente, por exemplo , você percebe que a principal fonte de estresse é a situação de trabalho, então o indivíduo muda de posto, de empresa, consegue manejar melhor seus horários, se é independente, isso pode melhorar. Mas se isso é impossível e ele tem uma tendência a interpretar as coisas como muito graves, quando na realidade não são, tem viés de raciocínio, isto pode ser abordado pela psicoterapia. Aquela metáfora . A gente pode ver o mundo com óculos coloridos. Estão vendo tudo vermelho, mudama lente e passam a ver tudo azul. Então é a forma de avaliação cognitiva, isso pode ser mudado. Agora, como alternativa, se estes meios não são disponíveis ou são muito caros, e há necessidade de urgência, então o medicamento pode ser usado, pelo menos temporariamente.

Hélio – Como uma forma de ajuda.
Frederico – E em algumas formas que são muito graves, como por exemplo depressões extremamente profundas, um surto agudo de esquizofrenia. Neste momento o trabalho psicoterapêutico é impossível. Então tem que controlar de outro jeito. O medicamento pode ser fundamental, mas não é este milagre que ficam falando. Pode ser útil, mas todos os medicamentos tem efeitos colaterais, indesejáveis, tudo é uma questão de pesar riscos e benefícios. Então se tomar remédio no caso de uma depressão muito grave, onde o indivíduo pode estar o dia inteiro sofrendo e não consegue fazer nada, fica com tendências suicidas, então maravilha, se ele fica com a boca seca neste momento isto não é importante. Mas tratar uma depressão leve com antidepressivos que podem causar uma série de efeitos, o risco- benefício deixa de compensar e é isto que precisa ser analisado pelo profissional competente. E ver também quando é possível utilizar os tratamentos não-medicamentosos.. Tem horário tem que ir lá, mas os resultados são mais duradouros, não existe prejuízo fisiológico. Mas se um tratamento psicológico for mal feito, ele pode ter conseqüências, a ligação com o profissional fica exagerada. Nada é isento de problemas, tudo tem seu risco.
Helio – A neuroimagem ( uso da imagem para demonstrar o funcionamento do célebros através de ondas magnéticas) hoje é a grande revolução ?
Frederico – É aquilo que eu falei, a interação da biologia com a psquiatria a coisa começou em meados do século passado, através da farmacologia, a descoberta de medicamentos, que influenciavam o curso das chamadas doenças mentais. Então isto até os anos 90, tudo o que era importante em relação à psiquiatria biológica era a psicofarmacologia. Ai então começaram a aparecer duas correntes muito importantes de desenvolvimento. Uma da neuroimagem permitindo então ver o funcionamento, a fórmula do celebro sem precisar abrir o crânio e matar a pessoa. (risos) Ou outro lado foi no extremo oposto no nível molecular. A chamada genética molecular também está tendo um impacto muito grande com relação à psquiatria.

Hélio – Qual o senhor acha que vai ser o futuro da psiquiatria, da pesquisa nesta área?
Frederico – Na parte de neuroimagem, o que eu acho que está assim dando para prever. É que nós vamos entender como a psicoterapia modifica o pensamento cerebral. No século passado a gente entendeu até certo ponto, de uma maneira razoável, como é que os medicamentos agiam no funcionamento cerebral e isso relacionado com as modificações clínicas. Eu acho que a neuroimagem está começando a fazer entender como a psicoterapia muda o funcionamento celebral. O outro lado é esta parte genética, que eu já falei, que já temos em muitas áreas, como também na psiquiatria, inclusive com possibilidade de você diagnosticar venerabilidade antes dela acontecer, isto é fazer a prevenção , isso em nível de saúde pública. Se a gente puder conhecer através da genética, quem realmente precisa ter aquele alvo, você imagina como vai diminuir o custo da prevenção! O impacto desse conhecimento pode ser muito grande. Para que fazer uma campanha dirigida a 180 milhões de pessoas, quando só 20 milhões precisam dela? Sabendo disso, o custo vai diminuir e a eficácia, provavelmente, aumentar. Esta é uma das coisas que a gente pode imaginar.

Hélio – Vai ser possível programar a vida das pessoas?
Frederico – Pelo menos ajudar a prevenir doenças, o que seria mais importante. Você vai evitar muita coisa. Mas não podemos esquecer que o ser humano é programado para morrer. Por mais que a genética avance ele tem um tempo máximo de vida, que se calcula entre 120 e 130 anos. Depois ele morre.

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