Jornal A CIDADE

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Júlio Chiavenato

Sabado, 10 de Maio 2008 - 17h58

Mãe


A Virgem Maria é o símbolo das mães no mundo cristão. No Brasil existem imagens da Virgem em todo lugar, com todas as variantes. Maria, sempre virginal, aparece com o Jesus loirinho, de olhos azuis (naquele tempo não se fabricavam judeus assim, eles se tornaram “arianos” depois que foram para a Europa) bem, deixa, o importante é que no Brasil a mãe do menino é sempre virgem.
Lá por 1400, em Portugal não era assim. No castelo de Batalha há uma escultura em pedra, da Virgem dando o peito ao menino Jesus. É uma Maria bonita, cheia de carnes, campesina, oferecendo o seio farto ao menino Jesus, gorducho, carinha rosada (a tinta esmaeceu, mas ainda está grudada na pedra) que morde e suga guloso a teta da mãe.
Na maioria das igrejas portuguesas, especialmente nas que turista não entra, não há Virgem Maria com o menino-deus sem que apareça também, a avó. Santa Ana é mais constante do que o pai, José. Em uma igreja do Porto há uma pintura em madeira de santa Ana ensinando o menino Jesus a ler. Ela está sentada e o pequenino, de pé, acompanha o dedo da avó, correndo sobre um texto hebraico (sei, Jesus não falava hebreu, mas o pintor quis assim).
Esse menino Jesus tinha os pés sujos. A pintura, de data desconhecida, presume-se, tenha uns 300 ou 400 anos. Já nessa data recente (1700 é ontem em Portugal) os santos portugueses ainda são morenos. Aparecem em cenas domésticas, mas nunca trabalhando.
O São José que se costuma ver no Brasil, serrando madeira, lá em Portugal nem passa perto de uma serra.
Voltemos à Virgem Maria. Nas antigas imagens portuguesas ela não sugere a santa. É simplesmente mulher e sobretudo mãe. Em Batalha, dá o peito. Seu filho suga o leite. Nada é tão sagrado.

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