Jornal A CIDADE

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Júlio Chiavenato

Segunda-Feira, 12 de Maio 2008 - 23h34

Canaboi


Como não entro na festa dos contentes, digo o que penso e ninguém liga. Sou mais um rabugento, como os que apelam à razão contra o pragmatismo econômico. No final da semana A Cidade noticiou duas tragédias, apresentadas como progresso e orgulho regional: 1) cana é a segunda fonte energética do Brasil: 2) pecuaristas, “expulsos” pelos canaviais, abrem pastos no Norte e Centro-Oeste, onde têm mais de um milhão de cabeças de gado.
São tragédias ecológicas e sociais que se complementam pela permanência de um modelo econômico cuja raiz vem da colônia: trabalho escravo e latifúndio. Mas os homens bons juram que hoje nenhum latifundiário explora os camponeses ou agride a natureza. Quem acredita nisso deve acreditar também que o escrito aqui é balela. O diabo é que insisto em não entrar no clube dos contentes, talvez por defeito genético.
Comecemos com a energia produzida pela cana. O Brasil não funciona sem o modelo atual de agronegócio. Ele é um dos pilares econômicos que sustenta e equilibra o sistema político que, por sua vez, garante as distorções sociais do país, que ainda não se tornou nação.
O agronegócio é fruto da propriedade extensiva da terra. Só um ingênuo acredita que, como na Europa, a divisão da posse da terra no Brasil pode produzir riquezas. Lá, sim. Aqui, não. Para ter cana e a riqueza concentrada que ela produz, é preciso manter a estrutura latifundiária do país. É essa estrutura que alimenta a economia. Já o gado, pelo arroto e flatulência infecta a Terra de metano. Acabou o espaço e me arrisco a afirmar mais uma bobagem, com o apoio de vários cientistas: é possível energia limpa e produzir alimentos sem agredir o planeta. Como está, morreremos envenenados.

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