Hamilton de Andrade Lemos
Segunda-Feira, 12 de Maio 2008 - 23h34 Imagine alguém sendo queimado vivo. Pode ser seu namorado, sua amante, seu filho ou mãe. Imagine você queimando vivo. Sem dúvida, uma morte horrível, talvez a pior delas. Eu, por mim, prefiro ser esganado e jogado do sexto andar.
Desculpe ter começado o texto de hoje de maneira tão trágica, beirando ao mau gosto, mas foi o que de melhor me acorreu após o último Fantástico. O programa quase que inteiramente dedicado ao exaustivo caso da menina Isabella, com a presença no palco dos horrores da própria genitora.
Sofisticando os recursos para prender a audiência do público, que até então reservavam a matéria de maior impacto para o final do programa, neste distribuíram a entrevista com a mãe por todos os blocos. Nenhuma bunda ou controle remoto se mexeu, durante algumas horas.
Enquanto enrolava o espectador, o apresentador Zeca Camargo deu a notícia da morte de Flávia de Souza. Moradora de rua, 15 anos, grávida, queimada viva embaixo da ponte. Incêndio provocado. Pronto, não gastou mais do que um minuto do dispendioso horário para informar o fato. E colou a notícia com outra, já com um sorriso no rosto.
Fiquei com pena desta alma sem rosto.
Talvez se vivesse em um edifício de classe média, não sob uma ponte, se tivesse uma família, não um grupo de mendigos, se o filho que levava fosse de pai conhecido, ou mesmo que fosse bonita, quem sabe recebesse um pouco mais de atenção.
Uma décima parte do sucesso de público e crítica da Isabella. Ingredientes para isso há.
Mas o mundo anda estranho, com tendência a pioras. E neste mundo, crime com rico é tragédia (e diversão). Com pobre, é só a chata da estatística.