Júlio Chiavenato
Terça-Feira, 13 de Maio 2008 - 23h43 O pessoal que transforma 1968 em ano mítico lembra-me Gil Vicente. Sobre alguém que fantasia o passado e esquece o presente, ele escreveu: del abismo vió el profundo,/ del profundo el paraíso,/del paraíso vió el mundo,/del mundo vió quanto quiso.
1968 é o ano das ilusões, nunca acaba e sempre é reinventado. Do abismo ao paraíso é o sonho dos que não acordam para a realidade. Naquele tempo as estradas tinham muitas bifurcações, mas dois caminhos definiam a condição de classe dos jovens: ideologia (revolução, para a esquerda; rebeldia, para os “libertários”) e a vida real dos pobres. Estudantes “riquinhos” não precisavam ganhar o pão de cada dia: papai provia. Escolheram a “luta libertária” e fantasiaram quanto puderam. Com discursos, drogas, alienação festiva em barzinhos ou “ripismo” adolescente. Os mais audazes saíram às ruas fantasiados de rebeldes.
De Gil Vicente pula-se para Ascenso Ferreira, o poeta que conta como o sujeito disparou o cavalo e depois se espantou: pra quê? Pra nada. Encheram as ruas de Paris (a cidade mítica) e apanharam da polícia. Pelo mundo afora a juventude antenada imitou franceses e alemães. A rebeldia generalizou-se e sentiram-se heróis.
Envelhecidos, teimam em não crescer. Choram as pitangas, uns com reumatismo mental, outros substituindo a memória pela invenção de um passado imaginoso. Os jornais divulgam seus livros. As belas conquistas: a saia mais curta ou mais longa; os cabelos ao vento ou o boné. Um ar de mofo nas lembranças. Em 1968 os jovens pobres que precisavam ganhar a vida enfrentaram o batente ou o desemprego. No Brasil a ditadura endurecia. O Ato Institucional 5 ditaria as regras. A guerrilha estourou: e não teve nada com “1968”.