Boa Forma
Quarta-Feira, 14 de Maio 2008 - 22h37
ESTICA O CORPO Funcionários de uma empresa de produtos veterinários de Ribeirão Preto iniciam a jornada de trabalho com aulas de ginástica laboral, que prosseguem ao longo do dia e têm a adesão da maioria
Segurar o telefone com o pescoço, carregar caixas pesadas, ficar de pé um dia inteiro, varrer por horas e horas ou, quem sabe, digitar sem parar em frente à tela de um computador. Não há trabalhador que não se enquadre nos chamados esforços repetitivos e não há saúde que supere dias, meses e até anos dessa rotina. É na ginástica laboral, a ginástica no trabalho, que empresas e órgãos públicos apostam para beneficiar seus funcionários e ganhar em produtividade.
A professora de educação física Renata Pereira Calhau, que trabalha com os funcionários do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, explica que a ginástica laboral é uma seqüência de exercícios especialmente desenvolvida para a prevenção das doenças ocupacionais. As séries têm exercícios básicos, que servem para qualquer trabalhador, mas também contemplam exercícios específicos voltados para os desgastes em cada tipo de trabalho.
Os funcionários da lavanderia do HC, por exemplo, têm baterias de exercícios de alongamento voltados especificamente para os braços, punhos e dedos. As aulas também trabalham pelo fortalecimento da musculatura.
Basicamente, a ginástica laboral evita o surgimento de LER (Lesões por Esforços Repetitivos) e as Dort (Doenças Osteomusculares Relacionadas ao Trabalho), que causam queda na produtividade e até o afastamento de funcionários.
- O Ministério do Trabalho estuda instituir a obrigatoriedade da ginástica laboral nas empresas e dar um prazo para que se adequem. É preciso mudar a cabeça das empresas. Cada afastamento de funcionário é um prejuízo porque elas precisam contratar outro empregado para substituir quem está doente, disse Renata.
As aulas para os funcionários têm 20 minutos e acontecem três vezes por semana. A adesão é espontânea e, de acordo com Renata, em alguns setores acontece de forma mais tímida.
Hoje, 6%, o equivalente a 400 dos 6 mil funcionários participam da ginástica laboral. A lavanderia é o setor que, proporcionalmente, mais participa das aulas e o da nutrição é o menos interessado.
- As pessoas da nutrição precisaria muito das aulas, mas só nos procuram quando já estão com dores. Aí, não adianta. Aliás, não é recomendado fazer a ginástica laboral quando o trabalhador está com dor. A ginástica é preventiva. Tem de ser feita justamente antes dos problemas aparecerem, afirma Renata.
Aquecimento virou aula
A empresa do ramo veterinário Ouro Fino também foi uma das pioneiras a disponibilizar aulas de ginástica laboral para os funcionários. São sete anos de aulas. Segundo o gerente de marketing da empresa Ruben Guimarães, durante esses anos, as aulas vinham sendo encaradas como uma espécie de aquecimento pela manhã para que os funcionários iniciassem o trabalho com pique. A adesão era de cerca de 70%. Há seis meses, a empresa implantou aulas personalizadas para cada um de seus 30 setores. Elas têm duração de 15 minutos e acontecem ao longo do dia e não somente pela manhã. Os funcionários não precisam se locomover dentro da empresa, as aulas são feitas no próprio ambiente de trabalho.
- A adesão é de cerca de 100%. As aulas não são obrigatórias, mas os funcionários ficam constrangidos de não participar, afirma o gerente.
Bom humor
A analista financeira Lidiane Christina da Silva trabalha na empresa há dois anos e sempre participou das aulas de ginástica laboral. Ela conta que conseguiu eliminar as dores nas costas e que sente não só mais disposição, como melhora no humor para trabalhar.
Ela afirma que outro efeito positivo é o da integração entre os funcionários. Lidiane não teve nenhuma dificuldade em aderir às aulas, mas conta que ela vive “puxando” outros colegas mais resistentes à ginástica.
- Eu me acostumei muito, se me atraso ou tenho que ir ao médico e perco a aula, parece que está faltando alguma coisa, afirma a analista financeira.
Saiba mais
Mudança de rotina favorece o bem-estar no ambiente de trabalho
A professora de educação física Renata Pereira Calhau afirma que também faz parte da ginástica laboral tecer orientações para que os funcionários possam tomar medidas no próprio ambiente de trabalho que os protejam da fadiga muscular.
Uma das dicas para quem trabalha em pé é revezar o peso do corpo entre uma perna e outra. Para quem passa o dia sentado, vale se levantar da cadeira quando sentir o corpo cansado da posição. Em média isso acontece uma vez a cada 30 minutos. Nos dois casos, as medidas simples melhoram a circulação no sangue. Ela indica ainda atenção com a altura dos pés com relação ao chão para quem trabalha sentado. Os pés não podem ficar balançando. Eles precisam de apoio para que os membros inferiores não tenham uma redução na circulação sangüínea. O monitor, para quem trabalha com computador, não deve ficar abaixo da linha de visão. Esse problema faz com que o trabalhador force o pescoço. Uma idéia é colocar listas telefônicas sobre o monitor para alcançar uma altura adequada.
- Não adianta o funcionário fazer a aula de ginástica e voltar para ambientes onde há uma disposição errada dos móveis e dos equipamentos. A gente procura educar para que ele mesmo saiba corrigir o que está errado, afirma Renata.