Jornal A CIDADE

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Hamilton de Andrade Lemos

Quarta-Feira, 14 de Maio 2008 - 23h0

Negros direitos


Não comentei na data correta. Prefiro pensar melhor (quando consigo), do que dizer besteira. Para este segundo mister já tem gente suficiente.
Sou leitor freqüente da coluna Arquivo Aberto (logo aí ao lado) deste jornal, que desenterra notícias do tempo em que o arco-íris era em preto e branco.
Tirando o que está ultrapassado, a maioria das notícias costuma ser bem atual, já que os problemas da cidade e o modo de vida das pessoas pouco mudaram em 100 anos. Parecem que mudaram, mas ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais, conforme a música do Belchior.
Veja o exemplo do último dia 13, dedicado às comemorações da abolição da escravatura. “Para commemorar essa gloriosa data nacional, as associações dos homens de cor desta cidade mandarão celebrar, às 9 horas, na capella de São Benedito, uma missa de ação de graças”.
Percebeu a ironia? Há um século, os negros da cidade comemoravam a abolição. Penso que toda a sociedade deveria tê-lo feito, já que o ato deveria colocar todos os cidadãos em igualdade de direitos. Depois, há o eufemismo dos “homens de cor”, como se chamá-los “negros” ou “pretos” fosse uma infâmia. E por fim, decidem por uma missa católica numa igreja de santo preto. Ficaria melhor num culto ecumênico, em campo neutro. Agora me diga o leitor o que mudou de lá para cá. Que leitura podemos fazer das denominações politicamente corretas como “afro-descendente”? O que dizer do sistema de cotas para negros nas universidades? Quantos guetos físicos ou morais ainda reservamos para a população que nasce com a pele mais escura que outra?
No século 21 continuamos tão racistas quanto um senhor de engenho.

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