Hamilton de Andrade Lemos
Quinta-Feira, 15 de Maio 2008 - 22h5 Semáforos. Milhões deles. Em meus pesadelos eles estão assim, incontáveis. Tento me mexer, talvez um braço, uma perna. Nem mesmo o músculo do diafragma. E vou sufocando com a paralisia.
Começa a entrar fumaça. De onde vem tanta fumaça? Percebo que a Kombi logo à frente parece pegar fogo. A fumaça sai do escapamento e é sugada pelo ventilador do carro, que a joga através da pequena grade no painel. Tento gritar. Há muito barulho lá fora e ninguém me ouve.
O semáforo continua vermelho. Parece que desde a formação do universo ele está assim. Olho para o carro ao lado e vejo uma mulher baixando o espelho do quebra-sol.
Ela abre a bolsa, uma grande bolsa, tira um batom. Antes de passar nos lábios, olha para mim e escreve no vidro lateral com o batom. Help. Seu rosto começa a se derreter.
Assusto com alguém batendo no vidro. Não quero abrir. Ele insiste. Abro apenas uma fresta, prevendo o pior. Como se fosse uma caixa de correio, papéis são jogados pela abertura. Os papéis gritam “compre, compre, compre”.
Pelas fileiras eternas de carros, agora vejo uma horda de seres mutantes. Alguns são pequeninos e carregam balas que grudam. Depois vêm os aleijados, os tortos, os sujos e um que empurra incensos contra meu nariz.
Tentam entrar pela janela do carro e falam cuspindo.
Se pelo menos eu conseguisse abrir a porta, fugiria a pé. Não há espaço para abrir a porta. Um malabarista sopra fogo pela boca e incendeia o carro.
O pânico é total. Puf...e acordo todo suado. Que alívio.
Foi só um pesadelo. Já posso tomar um banho, me vestir, tomar um café, pegar o carro e ir trabalhar. Tranqüilo e calmo, pelas ruas da cidade.