Jornal A CIDADE

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Vicente Golfeto

Sabado, 17 de Maio 2008 - 17h42

Para onde?


A dinâmica da fotografia é o cinema. Que é a fotografia em movimento. Kiné – que vem para o português como cine – em grego, é movimento, agitação.
Esta realidade projeta-se também nos transportes. Que, do carro-de-boi vai para a locomotiva. Surge então a ferrovia, quase no final do século 19. Daí para o automóvel, até chegar-se à velocidade dos aviões mais rápidos. A alimentação igualmente passa a ser rápida. É o fast food.
Não há psiquismo que agüente, não é mesmo? As neuroses e as psicoses vêm à tona, sobretudo a ansiedade, que é a neurose de quem tem mais pressa do que tempo. A partir daí, há quem enuncie o que seria uma verdade dos dias de hoje: toda pessoa sã é apenas um doente mal diagnosticado. E fala-se tanto de doente do ângulo físico quanto do ângulo psíquico. Notadamente deste ângulo. Normal é o neurótico. Por enquanto, porque, brevemente normal será o psicótico.
No Quixote nós notamos uma antecipação desta corrida sem fim. Lê-se o seguinte: “quatro cavaleiros partiram de Granada. Em disparada. Para onde? Para nada”. Cervantes anuncia a correria dos dias atuais, há quase quatrocentos anos atrás.
Seriam bons os tempos da ampulheta? A areia ia caindo vagarosamente, marcando o que hoje anota – embora com muito mais precisão – o relógio, o hora logos, que dá horologos, horologio, orológio, relógio. Marca-se a hora. À medida que o tempo acelera, surge o marcador do minuto. Até chegar ao cronômetro, que anota frações de segundo. Ao mesmo tempo, de coisas insignificantemente pequenas, aparece a nanotecnologia.
No fim, caminha-se para nada. Ou, para onde mora a saudade, lugar da morte.
Dostoiévski afirma que “o homem luta, na Terra, por um ideal oposto à sua natureza”. E este ideal exige que ele sacrifique seu ego às pessoas ou a outra pessoa. Quando ele não sacrifica, corre sem saber para onde. Nos termos postos por Cervantes y Saavedra.

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