Economia
Sabado, 17 de Maio 2008 - 18h59
ALBERTO MATIAS Economista acha que até dezembro inflação acumulada pode bater nos 10,5%
O aumento do salário mínimo de R$ 380 para R$ 415 vai segurar a inflação, no mínimo, nos próximos dois meses. Com o aumento de R$ 35,00 a alta no preço dos alimentos não será tão sentida. “O aumento do salário foi bem maior que a alta. Daí, o controle da inflação”, explicou Alberto Borges Matias, professor da FEA (Faculdade de Economia e Administração) da USP-Ribeirão Preto.
Pelos cálculos de Matias, entretanto, até dezembro, o Brasil poderá acumular inflação por volta de 10,5% pelo IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado, da Fundação Getúlio Vargas). Seria a repetição do índice inflacionário registrado em 2003. Mas os danos aos bolsos, principalmente da classe média baixa, geralmente a mais castigada, serão menores que em 2003, caso a economia do país também cresça, o que é bem provável.
“As perspectivas, hoje, são bem melhores que em 2003. Com crescimento, aumento de empregos, inclusive em carteira, a inflação não deverá ser tão sentida”, disse Matias.
O fato de o saque na caderneta de poupança ter superado os depósitos no mês de abril, após 19 meses, não é sinal de inflação, segundo Matias.
“A melhor explicação para o aumento dos saques em relação aos depósitos, é da própria Caixa Econômica Federal, para quem houve bom aumento em investimentos em imóveis”, disse.
A inflação de abril pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) foi de 0,55% contra 0,48 em março. O total acumulado, nos últimos doze meses, é de 5,04%.
O IBGE informou que a alimentação foi o item que mais contribuiu para o aumento de 0,07 ponto percentual. Especialmente o pão francês, seguido do macarrão.
O pão nosso
Há quarenta dias, numa padaria na Vila Seixas, bairro de famílias da classe média, uma faixa oferecia o quilo do pão a R$ 3,10. Na mesma padaria, hoje, o quilo é vendido a 5,49. Um aumento de R$ 2,39.
Os fregueses mais simples, têm uma visão toda particular para detectar o aumento no preço do pão. Um deles, de 66 anos, diz que, até uns quarenta dias atrás, comprava de quatro a cinco filões por um R$ 1,10. Hoje, R$ 1,20 é o preço de três filões.
O dono da padaria diz que o preço do trigo disparou. E como modesto comprador, é obrigado a pagar preço de mercado, sem direito a desconto. O “estouro” vai parar no bolso do consumidor.
Uma balconista, dois anos na padaria, diz que as pessoas estão comprando menos.
“Fregueses que costumavam levar dez filões, estão comprando de cinco a seis”.
Pedi a ela que me pesasse um pão: deu 35 centavos. Esse é o preço médio de um filão, hoje, nas padarias da cidade.
Até mesmo nos supermercados, que usavam o pão como atrativo para vender outros produtos, o preço disparou. Saiu dos R$ 3,00 o quilo para R$ 5,29.
Saudades
Nos supermercados, os consumidores andam com saudades do preços baixos.
Que beleza, o óleo de soja a R$ 1,30 ou R$ 1,50. Hoje anda pelas casas dos R$ 3,15.
O arroz, pacote de cinco quilos, de boa procedência, comprava-se até por R$ 5,60. Hoje, até mesmo as marcas menos recomendadas, custam acima de R$ 7,80.
Há um mês, o consumidor podia comprar feijão, da melhor qualidade, por R$ 8,30. Hoje, este mesmo feijão custa R$ 13,00. O feijão que custava R$ 4,00 subiu para mais de oito.
O leite
O preço do leite, então, a um real o litro - até R$ 1,15 - era um colírio para os olhos. Agora, custa de R$ 1,45 para cima, sem direito a promoção.
O preço do leite está entre os dramas de Teresinha Monteiro, 74 anos, residente no Orestes Lopes de Camargo. Ela sofre de osteoporose. Os médicos recomendaram-lhe muito leite mas ela está encontrando dificuldades para fazer as compras. “Ganho um salário mínimo. Gasto quase tudo com remédios. Não tem como comprar mais leite, queijo e iogurte, que tanto preciso”, diz. Dona Auxiliadora Lopes, 71, moradora no D`Elboux, sentiu o efeito da alta. Ela gastava, quinzenalmente, numa mesma compra, cerca de R$ 115 a R$ 120. Hoje, a mesma cesta, custa entre R$ 189 e 193. “Quanto mais metódica a pessoa, mais ela sente a inflação”, assusta-se.
Demanda de alimentos cresce até 2015
O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, anunciou que a crescente demanda por alimentos nos países em desenvolvimento, se manterá em alta até 2015.
A ONU (Organização das Nações Unidas) calcula em dez milhões o número de latinos-americanos que se juntarão às camadas mais pobres da população. Só no Haiti, há 1,7 milhão de pessoas que não se alimentam regularmente.
Em El Salvador, hoje, a população consome apenas metade do alimento que consumia há dezoito anos.
O sumiço do milho, aliado ao aumento do preço, aumentou em 54% a tortilla na Nicarágua; e 17% na Guatemala, um dos países com preços mais estáveis do mundo.
As Filipinas, grande produtora de arroz, além de suspender a exportação do produto, criou o cartão arroz, para facilitar a compra do produto pelas famílias mais pobres.
Leilão
A Conab (Companha Nacional de Abastecimento) fez concorrido leilão nesta terça-feira: vendeu 82,5 mil toneladas de arroz em casca e até estabeleceu as regiões que o produto deveria ser negociado.
Nesta crise, quem deve ganhar dinheiro é o Uruguai, sétimo produtor do mundo de arroz, com safra de 1,4 milhão de toneladas.
O maior produtor de arroz do mundo é Tailândia, que só no ano passado exportou, 9,5 milhões de toneladas.
A situação está tão grave, que a Nigéria suspendeu as tarifas sobre a importação do arroz, que mantinha há uma década, e anunciou a compra de 500 mil toneladas.