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Especial

Sabado, 17 de Maio 2008 - 19h21

Solitários e disponíveis corações

Sidnei Quartier
JOYCE CURY Solitários e disponíveis corações O CARRO DA POLÍCIA NO MEIO DA PRAÇA SETE PMs fazem a ronda e pedem documentos aos jovens

São 16h10 de quarta-feira. Cândida (nome fictício), 16 anos, está na praça Sete de Setembro há uns vinte minutos, mas sua namorada Marta, ainda não chegou. Explica que estão juntas há oito meses e que gosta muito dela.
-“Eu gosto mais dela que ela de mim, tenho certeza”. Mas não parece. Enquanto a namorada não chega, Cândida exercita a sedução com algumas meninas. Cabelos claros presos em rabo de cavalo e olhos esverdeados, ela é a própria conquistadora.
-“Ela não dá moleza”, comenta Jacinto, 17. Identificando-se como bi, Jacinto avisa que está disponível.
-“Pode ser ela ou ele, desde que tenha de 15 a 23 anos”, avisa.
A estudante L., 14 anos, com um piercing nos lábios, diz que se contar, já deu mais de 150 beijos na praça. Está sozinha, à procura de namorada. Conta que vai à praça porque não pode levar ninguém em casa.
-“Minha mãe é homofóbica (tem aversão a homossexuais). Não há condição de diálogo”, diz.
Ela chegou com Perla, 15 anos, que se declara bissexual. Mas não tem nada com a ver com L., de quem é amiga. Perla está à procura de namorado.
O apelido dela é “Capeta”. Da mesma forma que apareceu na praça, já no começo da noite, desapareceu. Ninguém informou seu nome. Dizem que o apelido é por causa de sua beleza. Cabelos louros, encaracolados, e olhos verdes. Saiu correndo porque faz Educação Física, em Batatais. E deixou um rastro de suspiros assim que partiu...
“Ela é close, uô do borogodô (ver gírias no box ao lado)”, diz Jacinto.

Novos romances
Na praça, rolam novos romances. Outros se desfazem. Há os que derretem a solidão com flash-back.
Lavínio e Léo trocavam olhares e gentilezas há algum tempo. Nessa quarta, assumiram. Foram saudados, se beijaram, fizeram juras e desfilaram de mãos dadas.
Betânia, 15, aluna do Otoniel Mota, e Jussara, 17, namoraram seis meses.
Depois de um longo tempo separadas, reviveram o romance em flash-back. “Uns beijos e abraços não fazem mal”, comentaram.
Ela é top de linha. Recebe, no mínimo, quinze “cantadas” por quarta-feira. Onde ela está, normalmente, forma-se uma rodinha. Loura, olhos azulados enormes, corpo de atleta, Jerusa, estudante do Cid de Oliveira Leite, não quer compromisso sério. Gosta mesmo é de “ficar”. (Todos os nomes são fictícios)


A gíria da praça 7
• 44, entendida ou 1,2,3 - lésbica • Mapô ou mona - mulher • Ocó - homem • Bi - bicha • Atraque - beijo ou transa • Ferver - agitar • Bate-cabelo - dança drag-queen • Close - bonita • Neca - órgão sexual masculino • Máfia - falar mal de alguém • X-1 - dois disputando o mesmo amor • Bafão - fofoca • Versátil - ativo e passivo • Uhô - pior, horrível • Aquendô - você entendeu • Chuca - banho • Marica - bicha com mais de 30 anos • Acho muito engraçado - resposta irônica, cínica • Êêê queridos - cheguei • Tô na intenção - brigar, pegar alguém • Uô do borogodô - boa, melhor • Não sou obrigado - recusar-se a fazer algo • Coragem - se expor • Sapata caminhão - lésbica com sinais de masculinidade • Sapata barbie - bonitinha, ajeitada


Psiquiatra recomenda ‘civilidade’
O psicanalista Moisés Tractemberg diz que impedir um casal de homossexuais caminhar de mãos dadas, no interior de um shopping, é falta de civilidade. “Qual a diferença de um casal heterossexual se beijando, num banco, e um casal homossexual passeando de mãos dadas ?”, questiona.
Para ele, o que não pode haver, é o comportamento excessivamente escandaloso dos jovens homossexuais.
“O ideal é civilidade dos dois lados”, recomenda. Em relação a encontros semanais, num mesmo local, diz que isso pode ser próprio da juventude. “Mas não deve se tornar irreversível para evitar isolamento ou confronto com a sociedade, como nos casos dos hippies”.
Já os pais, raramente, aceitam a homossexualidade dos filhos, por causa de “falhas narcisistas”.


Questionada sobre ações, a PM não responde
No começo da tarde de quinta-feira, a reportagem, pelo telefone, falou em vários setores da Polícia Militar, procurando pelo tenente Roberto, responsável pelo policiamento na praça Sete de Setembro. Ele não foi encontrado.
Um oficial da PM recomendou que A Cidade entrasse em contato com a assessoria de comunicação da corporação, o que foi feito imediatamente. O tenente Souza atendeu gentilmente, dizendo que assessorava toda a região militar e pediu que as perguntas fossem enviadas por e-mail.
As questões foram encaminhadas para o e-mail cpi3p5@polmil.sp.gov.br: 1) o policiamento na praça Sete de Setembro, às quartas-feiras, é rotineiro? 2) existe pressão dos moradores da área para que a PM faça blitz, tipo revista, nos freqüentadores homossexuais? 3) por que alguns jovens reclamam de excesso policial? Até sexta-feira, dia de fechamento do caderno, não houve resposta.

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