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Sabado, 17 de Maio 2008 - 19h28

O ‘Senhor Correios’: 61 anos no batente

Sidnei Quartier
J.F.PIMENTA O ‘Senhor Correios’: 61 anos no batente 2008, SALA NO 2º ANDAR DOS CORREIOS, NO CENTRO DE RIBEIRÃO Artur Costa trabalha na expedição de telegramas e diz que não quer sair : “vai ser o dia mais triste”

Você já ouviu a expressão “vá se queixar ao bispo”? Dona Mercina, com onze filhos (um já tinha morrido) recém-chegada de Ipupiara, um lugar pobre do interior baiano, conhecia bem. Só que ela não foi reclamar mas apenas fazer um pedido a Dom Manuel da Silveira D´Elboux, o segundo bispo de Ribeirão Preto.
Dona Mercina saiu de lá com uma cartinha que recomendava seu menino adolescente Artur Costa.
Com a carta, procurou a “colocação” que melhor convinha: pediu para ser recebida por Benedito Quartim, diretor do Departamento de Correios e Telégrafos (DCT). Corria 1946 e Quartim chamou o menino para dar um ajuda no final do ano, época em que cresce a entrega de correspondências.
No ano seguinte, em 1º de novembro, Artur Costa, então com 14 anos de idade, entrou para os Correios na função de ascensorista. Nunca mais saiu, tornando-se o quinto mais antigo funcionário da empresa, no país, com 61 anos ininterruptos. No Estado de São Paulo, é o que tem mais tempo de casa.
Aposentou-se há treze anos mas nunca lhe passou pela cabeça deixar o emprego. Nem mesmo uma cirurgia no intestino, que recentemente o afastou do trabalho por quatro meses. Lembra-se de muitos detalhes de 61 anos atrás e esquece outros, especialmente datas.
-“Naquele tempo, o bispo mandava mesmo. Por isso, consegui o emprego”, brinca.
Ele conta que ainda fez uma prova, a pedido de Benedito Quartim, e citou até do nome da secretaria do diretor, dona Maria.

O cassino vizinho
Quando Artur Costa foi admitido, os Correios tinham um único prédio em Ribeirão, na Álvares Cabral com a Américo Brasiliense. Por coincidência, em 1932, enquanto ele nascia, na empoeirada Ipupiara, o prédio dos Correios era inaugurado em Ribeirão. Pensa que estava predestinado.
-No aspecto arquitetônico, o prédio é o mesmo, especialmente do lado de fora. Por dentro, foi ampliado mas sem prejudicar tanto o projeto”.
Os vizinhos hoje é que não são mais os mesmos de 61 anos atrás.
Quando entrou, em 47, o vizinho mais encantador era o Cassino Antárctica, ali pertinho, a menos de 30 metros. As vedetes, quase não se via.
-“Eu era menor, nem entrava. As vedetes ficavam lá dentro. Na rua, a agente não sabia diferenciar entre mulher casada e a do cassino”, diz.
A zona do meretrício, freqüentada pelos ricos, ficava na rua Florêncio de Abreu e Saldanha Marinho, a cem metros. Mais embaixo, na José Bonifácio, ficava a zona de prostituição freqüentada pelos pobres.
O menino Artur Costa morava na Vila Tibério e cortava este trecho quatro vezes ao dia.
Só Deus sabe o que se passava pela sua “cabecinha” de adolescente porque ele jura que não se lembra mais.

A cidade
Ribeirão já era grande e tinha ótimas atrações, segundo Costa. “O Bosque Municipal era espetacular”, conta. Tinha o Pedro II, o Mercadão. O Palacete Inechi, onde é hoje o Itaú, na rua Duque de Caxias com Barão do Amazonas, era muito visitado. A praça XV era imponente. Tinha a Antárctica e Companhia Cervejaria Paulista na avenida Jerônimo Gonçalves, a estação da Mogiana. O prefeito de Ribeirão era o Fábio Barreto.

Telegrafista
Depois de um ano e meio como ascensorista, Costa foi para o que chama de sala de aparelhos: onde recebia e transmitia telegramas.
“Tinha o morse e o baudot, um aparelho francês (inventado por Jean-Maurice Emile Baudot, em 1972). E também o que se fazia por telefone. Era linha física, com aqueles postes bonitos, nas ruas e cortando fazendas afora”.

Carreira
Depois de telegrafista, Costa foi chefe de turma, dirigente, dirigente-geral e chefe do tráfego telegráfico. Aí veio 64, o golpe dos militares, a política virou tudo, nomearam outro no lugar dele, mas o mantiveram na empresa.
-“Antes de 64, de Rio Preto para cá, tudo era subordinado a Ribeirão, mais de cem agências. Eu fiquei dois anos e pouco como chefe do tráfego telegráfico. Ai desmembrou tudo e o comando foi para Bauru. Para o meu lugar, veio um rapaz de São Paulo”.

Hoje
Técnico Operacional Pleno é o cargo atual de Costa. “Hoje está tudo moderno, tem umas máquinas que nem mexo nelas. Eu fico aí na expedição de telegramas, soltando para fazer entrega, essa é a minha função”.
Costa pretende continuar trabalhando até ser demitido. “Pedir para sair, não peço. Vou até onde der. Tenho feito tudo direitinho para melhorar a aposentadoria. Estou pagando até o Postal Prev”.
Perguntado sobre o que existe de melhor nos Correios, atualmente, Costa responde que é área telegráfica.
-“Não sei se é porque nasci nela. Antigamente, ser telegrafista não era fácil.”
Costa é fã de Juscelino Kubitschek por dois motivos: pelo fato de ter sido um grande presidente e por ter sido um excelente telegrafista.
-“Ele transmitiu uma mensagem no morse, em Ribeirão. Foi em 54, estava em campanha para a presidência. Ele era rápido, bom profissional.
-O senhor saberia viver, hoje, sem os Correios? Costa responde que não. Pergunto qual foi sua maior alegria, no emprego. “O dia que me tornei telegrafista”. Alguma decepção? Nunca. “O dia mais triste será o da despedida da empresa”.


Uma única punição em 61 anos. Cantou no emprego 22/24
O assentamento (ficha de trabalho) de Artur Costa até sua opção pelo Fundo de Garantia de Tempo de Serviço, em 66, regista raríssimas faltas, todas justificadas; poucos pedidos de licença e uma única punição disciplinar.
A punição foi aplicada no dia 28 de janeiro de 1950 pelo seu então chefe de turmas, Onofre Alvares Cabral.
No assentamento, consta o motivo: foi advertido quando pôs se a cantar em voz alta em tom de Mozart (o compositor) na sala de trabalho.
“Eu parei de cantar, é claro. Mas passei a assoviar baixinho. Como também era proibido em serviço, reforcei a punição”, brinca. Anos depois, a pena disciplinar foi anistiada e deixou de constar do assentamento (está riscada).
Quando surgiu o FGTS, para substituir a estabilidade no emprego, Costa já tinha 19 anos de Correios. Com a chegada dos militares, o sistema de assentamento foi substituído. Ao longo dos anos, tirou apenas duas licenças-prêmio. A cada dez anos, ganhava 6 meses.


O título de honra ao mérito
Na sessão de quinta-feira passada, a Câmara Municipal aprovou decreto legislativo que outorga a Artur Costa o título de Honra ao Mérito. A proposta foi apresentada pelos 61 anos de trabalho nos Correios.
Artur Costa nasceu em 17 de janeiro de 1932 em Ipupiara (BA) e chegou a Ribeirão Preto com um ano de idade.
Dos doze irmãos, cinco estão vivos.
Em 24 de setembro de 1960, casou com Margarida Aguiar Costa. Nasceram duas filhas: a dentista Cristina Costa Nemoto e a professora Juliana Costa. Os netos, são três.

Dia do Telegrafista
Dos 108.881 funcionários dos Correios, Artur Costa é o mais velho do Estado de São Paulo e o quinto do Brasil.
No começo dos anos 50, já telegrafista mas sem ter prestado concurso público, decidiu passar uma mensagem ao presidente da empresa, cumprimentando-o pelo dia do telegrafista, comemorado em 24 de maio.
Para surpresa geral, o presidente respondeu com uma informação que o Brasil, até então, desconhecia.
Ele avisava que os telegrafistas ainda sem registro oficial (eram muitos) deveriam estudar bastante porque os Correios realizariam, em breve, um concurso. “Foi uma loucura”, lembra. Só mais uma emoção que veio pelo telégrafo.

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