Júlio Chiavenato
Segunda-Feira, 19 de Maio 2008 - 23h30 A garantia de liberdade religiosa e defesa contra os preconceitos e discriminação só são possíveis nos estados laicos (a União Soviética não era um estado laico, mas ateu. Tinha até Ministério do Ateísmo). O caminho mais curto para a perseguição religiosa são as teocracias. Mesmo nos estados laicos, quando a religião se imiscui nas questões governamentais os resultados são desastrosos. Exemplos: a Espanha franquista no século passado e hoje, os Estados Unidos, submetido ao fundamentalismo do governo Bush.
Acaba de ser criada a Associação Jurídico-Espírita de São Paulo, que reúne juízes, promotores, delegados e advogados. Entre suas reivindicações está o uso de cartas psicografadas nos tribunais. E pretende discutir temas já definidos religiosamente, como as pesquisas de células-tronco, aborto, eutanásia. O promotor Tiago Essado, um dos fundadores da nova entidade, afirma que “o Estado é laico, mas as pessoas não”. Ledo engano: eu, como milhões de brasileiros, sou pessoa e sou laico.
O promotor justifica-se: “Não tem como dissociar e dizer: vou usar a minha fé só dentro do centro espírita”. O juiz-auxiliar Alexandre Azevedo declarou à Folha de S.Paulo que para ele têm o mesmo peso jurídico uma declaração mediúnica como a de uma testemunha viva. Também à Folha o juiz aposentado Zalmino Zimmermann afirmou que é preciso “questionar os poderes constituídos para que o direito e a Justiça sofram mais de perto a influência de espiritualizar”.
Os juristas reunidos em entidades religiosas espíritas recém fundadas pressionam claramente para a prevalência ideológica de suas crenças. Com a decaída cultural, a decadência filosófica e o corporativismo triunfante, Deus seja convosco...