Jornal A CIDADE

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Hamilton de Andrade Lemos

Quarta-Feira, 21 de Maio 2008 - 22h53

A dona do jipão


Semáforo fechado. Um dos mil bilhões que infestam a cidade. Talvez resultado de alguma facção criminosa da engenharia genética, que os cruza com partes da tiririca. Eu, obviamente, parado, à espera do fim da glaciação. Ou que o sinal fique vermelho, o que vier primeiro.
À minha frente, um carro qualquer, com placa de uma cidade qualquer, destas próximas que enviam às vezes tranqüilos motoristas para também se desesperarem em nossas ruas. Logo atrás de mim um maravilhoso jipão preto, de brilhos majestosos, como imagina sua dona deva ser sua importância neste mundo.
O sinal abre. Uma infinita fração do segundo após a dona do jipão buzina. Acostumado ao trânsito pacato de sua cidade – que Deus o guarde – o motorista da frente não vê motivos para pressa. Recebe cordialmente a propaganda das mãos da garota, agradece, engata a primeira e, após certificar-se de que chegou o grande momento de seguir, acelera suave. A dona do jipão buzina novamente. Não lhe basta que haja progressão. Pela forma com que toca a buzina de seu jipão, deixa evidente sua impaciência. Talvez proteste pela falta de velocidade dos que vão à frente. Afinal, seu jipão tem cavalos indóceis e pretensiosos sob o capô. Ou então esteja reclamando haver mortais proletários impedindo a passagem. Gente que não vale seus retrovisores polidos e nem sua consideração. Demora ainda alguns momentos, diria ela uma eternidade, para que o companheiro da frente e eu consigamos abrir algum espaço para o jipão. E ela então despeja sua fúria no pedal do acelerador, zunindo potência sobre a poeira do asfalto, até sumir de nossas vistas. Tomara fosse a dona do jipão uma médica em salvamento de urgência. Nenhuma outra pressa desculparia tanta arrogância.

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