Jornal A CIDADE

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Júlio Chiavenato

Sexta-Feira, 23 de Maio 2008 - 23h21

Fé e opressão


O casal evangelista líder (ou dono?) da Igreja Renascer em Cristo foi preso, julgado e condenado nos Estados Unidos por contrabando de dinheiro. Seus fiéis aparentemente não se abalaram: saíram em passeata com 1,2 milhão de pessoas, quinta-feira em São Paulo.
Richard Dawkins, no livro Deus, um delírio, conta o caso de um telepastor norte-americano que conseguiu milhões de dólares dos seus seguidores argumentando que Deus o mataria se ele não arrecadasse dinheiro para “divulgar a fé”. Os fiéis o atenderam. Hoje ele dirige uma “universidade religiosa” cujos prédios estão avaliados em 200 milhões de dólares.
Nos 21 séculos de catolicismo a Igreja acumulou a maior riqueza do mundo, enquanto povos inteiros sacrificavam-se, às vezes entregando-se à morte certa, para construir templos e conquistar ouro para a “expansão da fé”.
As igrejas européias e nas Américas comprovam a opulência e a ostentação, enquanto a história ensina que para construí-las explorou-se populações miseráveis. As obras de arte, a bela arquitetura, o ambiente no interior da maioria desses templos, que toca a alma até dos ateus (supostamente uns ímpios desalmados) justifica o sacrifício de gerações?
Ainda lembrando Richard Dawkins, cujo livro foi analisado superficialmente pelos críticos de jornal, destacando mais o “escândalo” que provocou do que o seu conteúdo, por que os religiosos podem se ofender com o que está escrito aqui? Por que eles, por uma questão de fé, podem sentir-se “atacados”? E por que, racional e humanitariamente, os que assumem as dores dos explorados por espertalhões e condenam a morte e miséria causada por megalomaníacos construtores de templos não podem, livremente, expor seu espanto?

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