Especial
Sabado, 24 de Maio 2008 - 15h20
CERTICADO HONROSO Trabalho ajudou na conquista do Nobel da Paz
Com 15 anos de idade, participou do concorrido Cientista do Amanhã. Entre mais de uma centena de candidatos, ficou em segundo lugar. Do vencedor daquele concurso juvenil, não se tem notícia.
Mas de Carlos Clemente Cerri, 62, tem-se notícia das melhores. Há duas semanas, foi informado que era um dos ganhadores do Prêmio Nobel da Paz de 2007.
O reconhecimento partiu do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) mantido pela ONU e do qual Cerri é colaborador desde sua criação, em 1993.
O certificado do Prêmio Nobel da Paz já foi enviada ao cientista brasileiro e, uma cópia, colocada numa moldura, em sua sala de trabalho, no gabinete da presidência do Cena (Centro de Energia Nuclear na Agricultura) da USP, em Piracicaba.
O prêmio
O IPCC e Al Gore, ex-vice presidente dos EUA, receberam o Nobel da Paz pelo esforço conjunto na criação e disseminação de maior reconhecimento acerca da influência humana nas mudanças climáticas e pelo lançamento das bases necessárias para inverter essas mudanças. A experiência do IPCC valeu um filme produzido por Gore.
Supreso
Em Valença, interior da Bahia, onde passará os próximos trinta dias pesquisando a produção de biocombustível, o professor Cerri mostrou-se extremamente feliz e gratificado com a premiação.
Ele explicou que o Nobel da Paz foi ganho pelo IPCC e por Al Gore, que utilizou a pesquisa feita pela entidade para fazer um filme contundente sobre as mudanças climáticas. Com isso, o IPCC reconheceu sua colaboração e de outros poucos cientistas. Ele não sabe de alguém do Brasil que tenha recebido a honraria. “Espero que as idéias de outros cientistas sejam bem avaliadas”, disse.
Síntese
O professor Cerri conta que o trabalho feito pelo IPCC foi sobre a síntese do estado da arte, das informações sobre as mudanças climáticas. Foi iniciado em 1993, exatamente para avançar os estudos sobre mudanças climáticas. Em 95, o IPCC publicou o relatório que acabou dando origem ao que se chamou Protocolo de Kyoto, no Japão, onde as mudanças no clima foram intensamente debatidas. “Fazemos isso para que possam ser tomadas decisões políticas públicas e diplomáticas.
O pontapé inicial do IPCC, em 93, reunia cerca de 200 cientistas do mundo todo. Com o passar do tempo, aumentou para mil. O Brasil participa com dez cientistas. Modesto, Cerri crê que foi premiado pelo fato de ser um dos mais antigos colaboradores do projeto.
De Jaboticabal para o Nobel
Carlos Clemente Cerri nasceu em São Carlos e entrou na Faculdade de Veterinária e Agronomia de Jaboticabal quando tinha 19 anos. Formou-se em agronomia, em 1971. Em seguida, fez geologia, na USP, em São Paulo. Completou mestrado e doutorado, em Geociências. Em 1975, foi contratado pelo Centro de Energia Nuclear da Agricultura (Cena), em Piracicaba.
Como teria sido o caminho de um agrônomo que se tornou diretor do Centro de Energia Nuclear da Agricultura?
O professor Cerri responde que são coisas que vão acontecendo mais ou menos dentro daquilo que você programa e das oportunidades que surgem.
Ele lembra que terminava o mestrado, quando soube que o Cena estava procurando um engenheiro agrônomo que tivesse especialidade em geologia. Foi um colega, que fazia mestrado com ele, quem deu a dica.
“Fui a Piracicaba, fiz exames e acabei aprovado. Na Geologia existe a prática de geoquímico, onde acabei me especializando. Naquela época não havia concurso e isso facilitou tudo”.
O agrônomo que virou traçador
No Centro de Energia Nuclear da Agricultura (Cena), o professor Cerri desenvolveu o método nuclear traçador isotópico. Um elemento químico, explica o cientista, tem vários isótopos, como o carbono, por exemplo. Existem o carbono 12, 13 e 14 - o C14 é radioativo. É o mesmo elemento químico mas emite radiação, de acordo com o núcleo. A partir daí, ele estabeleceu o traçador.
“Sabe quando paciente toma iodo radioativo para ver a tireóide. Toma iodo e depois o médico mede a radiação. De acordo com a quantidade de iodo que fica na tireóide, ela se mostra mais ou menos ativa. Este é o traçador, não faz mal para a saúde porque a dose é pequena. A gente usa o traçador para ver onde ele vai, desde CO2 que está na atmosfera, o que vai para a planta, para água, para o animal, enfim, para onde ele vai. Então, traça-se o caminho”.