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Sabado, 24 de Maio 2008 - 15h28

A paz nas favelas, segundo o crime

Simei Morais
JOYCE CURY A paz nas favelas, segundo o crime REAÇÃO Não seria o poder paralelo, mas uma ordem contrária ao poder, diz o antropólogo Júlio Tavares

Demorou meia hora para o traficante abrir um sorriso. Recebera a repórter encarando nos olhos. As sobrancelhas arqueadas e a mão no queixo conferiam um ar de desconfiança. Correria, 25 anos, há 13 no tráfico, tem pose de durão, e os braços fortes reforçavam essa primeira impressão.
Foram alguns minutos explicando o objetivo da matéria. Depois de uma série de perguntas e respostas, o homem baixa a guarda e começa a falar. Mostra postura madura para a idade. E embora ria entre um comentário e outro fora do assunto principal, refaz a seriedade no rosto toda vez que cita a vida nesses núcleos habitacionais e a “paz” que, ele diz, o crime “estabeleceu” na periferia.
Sim, a “ordem” que se vive nas favelas parece passar pelo crivo do crime. Mas morador algum fala abertamente. “É assunto que ninguém vai te responder”, diz um rapaz que já foi usuário de drogas e mora numa das 33 favelas de Ribeirão Preto (a reportagem não citará o nome de nenhum conjunto habitacional, como combinado com os entrevistados).
“Não quero me meter, cada um na sua”, se esquiva a integrante da associação de moradores de um outro núcleo, logo depois de passar ao lado de um rapaz que esmiuçava maconha com os dedos. Na gíria, que até as crianças desses locais conhecem, ele “dechavava” a droga.
Se nenhum morador falava, o jeito era saber da “fonte”. Foram várias tentativas, até convencer o traficante a dar entrevista.
Correria, jargão do crime para quem é da “atividade”, confirma que, em Ribeirão, há o mesmo esquema de “paz” que se vê pela televisão nas favelas de cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro. “A primeira regra é não falar das regras”, diz. Sem detalhar as “normas”, ele conta como essa ordem foi constituída.
É uma espécie de “conselho” entre os grupos do crime que sustentam a “paz” constituída nas favelas. Tudo está baseado em regras.
“Elas surgiram primeiro para o crime, depois se estenderam para a comunidade, para o outro não andar errado, não entregar (quem é do crime). Se a polícia descobre alguém, o primeiro a passar por desconfiança é quem falou que não gosta”, diz.
Também não dá para saber se alguém discorda dessa “ordem”. As pessoas normalmente não se pronunciam, cita.
Mas ele avalia que a população que não é do crime- a maioria- adere à “paz” dos traficantes porque também se beneficia. “Se roubarem a bicicleta do cara, ele pode pedir ajuda”, diz.
Para ele, os moradores confiam mais nos criminosos locais que na polícia. “Eles (os policiais) chegam de qualquer jeito, batem, xingam. Nós somos da periferia, somos parte da comunidade”, declara.
Faz sentido, afirma o antropólogo Júlio Tavares, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Não que a população do núcleo opte ou seja forçada a aceitar essa ordem, mas é que não há alternativa, aponta.
“O outro poder, o do Estado, não chega, e nem pode ser comparado com esse poder (do crime) que se constitui, que é o único que existe”, afirma Tavares, que também é fundador da CUFA (Central Única das Favelas), organização não-governamental que atua com arte e educação em favelas de grandes cidades brasileiras.

Assim nasceu a “ordem”
Essa “paz” constituída aconteceu na virada do século, e com “dedo” de criminosos da capital, conta Correria. Ele nega, porém, que tenha sido uma atuação em rede, como uma organização, e não responde quando pergunto se seria uma “ordem” do PCC (Primeiro Comando da Capital).
Tudo aconteceu porque os homens - e muitos garotos - do tráfico estavam se matando. Era 2000, no auge da guerra entre bairros e favelas. “Morria gente para todo lado, inclusive inocentes”, diz Correria. Os rapazes tinham que ir para a boca armados, e a encrenca era maior. “Porte de arma é mais complicado”.
O DJ Yzak, líder do Consciência X Atual, grupo de rap de Ribeirão, recorda que, na época, a banda tinha de repetir a apresentação três ou quatro vezes, toda vez que fazia show na Febem (atual Fundação Casa). “Os meninos de um bairro não podiam se misturar com os do outro”, diz.
O crime perdia gente e dinheiro. Tinha dia que ninguém aparecia na boca para vender droga. Até que teve a interferência paulistana. “O ódio era muito grande, tinha que ser algo maior que Ribeirão”, defende Correria.
As mesmas regras que se espalharam pela comunidade seguiram para os presídios e a Febem.
Nesse processo de paz, o movimento Mães Pela Paz também teve um peso, diz. “Posso falar por mim. Um dia eu vi uma delas chorando na TV, porque tinha perdido o filho, e pensei ‘e se fosse a minha?’”, revela.
O promotor criminal Luiz Henrique Pacini Costa prefere ressaltar o papel das mães nessa história. Diz não acreditar que haja organização capaz de estabelecer a “não-morte”. “Esse público, de infratores, não é de fácil domínio. E as organizações não atraem 100% dos infratores”, comenta, atribuindo os fatos narrados por Correria a uma suposta organização criminosa. Pacini diz que uma soma de fatores seria a responsável pela paz. Como a mudança de comportamento, em que a queda de mortes reduziria a possibilidade de vingança. “Mas houve pouca intervenção de política pública correspondente à queda”, aponta.

Favelas não têm violência
As favelas não estão entre os locais mais violentos de Ribeirão Preto, aponta a Polícia Militar. Segundo o capitão Naby Affiune, porta-voz da PM, esses núcleos estão inseridos em setores da cidade, mas nenhum deles se destaca num eventual mapa da violência. “Não existe algo pontual, não há setor com mais periculosidade”, afirma.
Também não há uma escala significativa de ocorrências policiais em favelas, diz.
“Muitas agressões ou danos, lá, nem são registrados, eles resolvem entre eles. Nada que se destaque em ocorrências”, cita.
O capitão comenta que é a baixa qualidade da infra-estrutura que possibilita a violência. “Onde falta infra-estrutura é mais fácil haver violência. As pessoas não têm segurança de onde dormir ou viver”, analisa.
Affiune diz ser necessário um trabalho “minucioso” de assistência social para melhorar a qualidade de vida nas favelas. “Falta apoio de outros órgãos”, afirma.

O pico de mortes e o esquadrão da morte contra a ‘paz’
O ano de 2000 experimentou um pico de homicídios dolosos em Ribeirão. Foram 43,23 mortes para cada 100 mil habitantes, segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Foi um número maior do que os 37,2 registrados na cidade do Rio de Janeiro, ano passado.
Coincidência ou não, Ribeirão teve queda no número de mortes após “a ordem” relatada por Correria. “O crime mudou de mentalidade depois de 2000. Menino não mata mais tanto”, confirma N., rapaz entrevistado na boca-de-fumo de uma favela (ele não é do grupo de Correria).
Em 2001, a cidade teve 34,31 homicídios por 100 mil habitantes, taxa que caiu a 8,08, em 2007.
Se a paz teria sido estabelecida pelo crime, uma tentativa de levá-la por terra teria surgido com o suposto grupo de extermínio formado por policiais civis e militares, no início da década, defende Correria.
“Eles surgiram para fazer a guerra voltar”, diz. Ele relembra o caso de um homicídio atribuído a um traficante que estava em outro Estado. “Eles matavam e soltavam boato de que tinha sido o antigo desafeto da pessoa”, conta.
O rapaz acusado teria telefonado imediatamente após ao crime a um investigador da polícia para atestar que não estava em Ribeirão. O caso foi confirmado em uma ação criminal no Ministério Público.
A reportagem apurou que o julgamento de parte dos acusados do suposto grupo de extermínio está prestes a ocorrer.

É o contrapoder, diz antropólogo
A “ordem” que seria estabelecida por criminosos nas favelas não seria um “poder paralelo”, avalia o antropólogo Júlio Tavares, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Em territórios “independentes”, como ele denomina as favelas, e com a maioria dos jovens entre 15 e 24 anos sem trabalho, acontece um“contrapoder”.
“É uma ordem que é contra-ordem, contrário ao poder. O problema todo é da desigualdade, o preconceito é muito forte, o Brasil ainda é aristocrático, de brasões”.
Tanto Correria quanto outros rapazes do crime têm essa percepção na ponta da língua. “A raiva cresce mais rápido que o progresso, na periferia”, diz Correria.
Para quem é da periferia, custa mais caro chegar ao “topo” pelas vias normais, diz o traficante. Diz que um menino de favela vê muito longe a possibilidade de “virar alguém” depois de terminar os estudos, passar horas no transporte coletivo e quatro anos na faculdade até começar a trabalhar. O crime é mais rápido e eficiente numa possível ascensão social, diz.
“A raiva cresce rápido em quem cresce vendo a mãe catar latinha, a chuva invadir o barraco, e sua blusa maior porque não foi comprada para você usar. O progresso precisa se alimentar de coisas boas, mas qualquer coisa alimenta a raiva”, depõe.
Faltam recursos que permitiriam ao povo da favela viver “de igual para igual”, com os de “fora”, afirma N., rapaz duma boca-de-fumo de uma favela. “A gente já está fora do mundo moderno. Para as crianças, tinha que ter mais esporte e cultura, assim não iriam para o caminho do crime”, analisa. “Quem não tem isso e é condenado a viver assim, sai de uma birosca e entra na outra”, dispara N.
A visão social aguçada não é só de quem está no crime, mas de toda a periferia, aponta Tavares. Quem vive em condição subalterna é obrigada a desenvolver uma série de artifícios, diz. “Eles percebem com refinamento as agruras do cotidiano”.

Tensão: ‘vamos meter bala’
Nem toda tentativa de entrevista deu certo, com pessoas supostamente ligadas ao tráfico, nas favelas onde a reportagem os encontrou.
Num primeiro endereço, um rapaz na casa dos 20 anos, a quem moradores apontam como o “vendedor” local, pára a caminhada para atender a repórter. Cumprimenta com aperto de mão. “Desculpa, moça, mas não estou autorizado”, recusa a entrevista, com um cordial aceno de cabeça. Ao lado dele, um rapaz enrola um cigarro de uns 15 centímetros.

Desconfiança
Num outro núcleo, porém, houve um aviso de “se descer, vamos meter bala”, quando o carro da reportagem chegava. Aparentavam ser adolescentes. Mas a conversa, nesse dia, não era sobre tráfico, e sim sobre a infra-estrutura local.
Enquanto a reportagem conversava com uma mulher, um grupo de jovens, afastados cinco metros, fazia sinal para ela tomar cuidado com o que dizia. “Eles acham que vou falar de alguém, mas nunca vou fazer isso”, respondia a mulher.
No mesmo dia, um rapaz questionou o fotógrafo sobre o que fazia ali, e acompanhou a reportagem, a distância, até o carro partir.

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