Jornal A CIDADE

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Júlio Chiavenato

Sabado, 24 de Maio 2008 - 15h36

Buraco estreito


Ser “self-made-man” ganhando o pão de cada dia com o suor do rosto, lutar feito cão contra a concorrência dos mais fortes, pagar juros de agiota aos bancos e aos próprios, investir com um risco danado, conquistando clientes arredios e caloteiros, recebendo quase nada para investir tudo e depois, só muito depois ver o resultado concreto, isso qualquer um faz. E ainda paga imposto.
Vantagem é ser “self-made-man” só com o sorriso e a lábia política, deixando o mundo rolar enquanto os “amigos” abrem caminho e o povo consagra o bem-amado com as bênçãos divinas e as urnas. Depois permanecer com o sorriso aberto e querendo mais, fingindo nada pedir. E recebendo em dobro, em triplo, em quádruplo e quem sabe em quíntuplo.
A receita é simples: fingir humildade e parecer bom moço. Ganhar um microfone e “irradiar” da tragédia das enchentes ao aniversário da vovó. Encontrar um padre de esquerda que lhe abra os olhos (a mente não é exigida) e receber a confiança do pessoal que espera mudar o mundo. Mas vendo que o mundo foi e será uma porcaria, trocar de lado e aderir aos que mandam.
Então, colher os frutos. A vida vai de vento em popa, com a ajuda dos “amigos”, dos trouxas e do povo. No caminho tropica nuns chatos e invejosos, mas pra quê existe raminho de arruda? Tira tudo de letra e vê a vida sorrir, sorrindo de volta.
Ao contrário do samba, felicidade não tem fim. Mateus disse, ao que tudo tem, tudo será dado, do que nada tem, até o que tem será tirado. O vitorioso sorri e só de vez em quando posa de brabo, pois intuitivamente sabe: “Apertas o leite e sai manteiga” – como ensina o provérbio bíblico que manda tomar cuidado com o nariz e as rixas.
O problema é o camelo e a agulha.

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