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Sabado, 24 de Maio 2008 - 16h37

Ribeirão Preto ainda tem cafezais

WEBER SIAN Ribeirão Preto ainda tem cafezais O ‘REI’ ATUAL O agricultor Pedro Pinto Coelho é hoje o maior produtor individual de café no município

Se ainda existisse a figura do “rei do café” em Ribeirão Preto, o título pertenceria a Pedro Pinto Coelho, hoje o maior produtor individual no município. Mas bem diferente do que ocorria no período de 1883 a 1929, quando Henrique Dumont, Francisco Schmidt e Geremia Lunardelli foram de fato “reis do café”, pelo grande volume que produziam e por Ribeirão Preto ser capital do café na época em este era disparadamente o principal produto exportado pelo Brasil.
Naquele tempo, o Dia Nacional do Café, que passou a ser comemorado em 24 de maio, não passaria quase sem lembrança como agora acontece. A cidade não vivia sem o café. Prova disso é que, na grande crise de 1929, com o crash na Bolsa de Nova York, Ribeirão Preto entrou em profunda crise, da qual só se recuperaria duas décadas depois.

Ontem e hoje
No auge, por volta de 1900, existiam 265 grandes propriedades rurais com 29 milhões de pés de café em plena produção.
Hoje, embora o número de propriedades (face à divisão de fazendas) seja mais do que o dobro do que existia há 110 anos, a quantidade de pés de café não chega a 350 mil.
Sozinho, o segundo “rei do café”, coronel Francisco Schmidt chegou a possuir 14,5 milhões de pés em 60 grandes fazendas, cuja localização se estendia além dos limites de Ribeirão Preto.
Hoje, o maior produtor de café no município, Pedro Pinto Coelho, tem 65 mil pés em produção numa área de 30 hectares.
É pouco menos de um terço de todo café produzido em 103 ha de terras do município.

Diversificação
Pedro é também produtor de cana-de-açúcar, sua atividade principal. O contrário de Francisco Schmidt, que, assentado no café, diversificou com a cana-de-açúcar e instalou em 1907 a primeira agroindústria do gênero na região, o Engenho Central, entre Sertãozinho e Pontal, e também mantinha 14 mil cabeças de gado.
Mineiro como o primeiro “rei do café”, Henrique Dumont (1883-1891), Pedro chegou a Ribeirão Preto em 1959 e, em 1975, adquiriu a atual propriedade em Bonfim Paulista.
Os outros dois “reis do café” também vieram de fora: Francisco Schmidt (1891-1924), da Alemanha, e Geremia Lunardelli (1924-1929), da Itália.
“Logo depois que cheguei a Ribeirão, o governo incentivou, na década de 1960, a erradicação dos cafezais. Mais tarde, a cultura voltou a despertar interesse. Hoje, bem conduzida, é uma atividade rentável, melhor até que a cana”, diz Pedro Pinto Coelho.
Mas ele sabe, seguindo a opinião geral, que não há outra perspectiva para o café. Fora as pequenas áreas comerciais que resistem à evolução dos tempos, a lembrança do tão decantado “ouro verde” não passará de plantas ornamentais, como as que existem na Avenida do Café, a caminho do Museu do Café, inaugurado em 1955, registro histórico de uma época deslumbrante.
Povoadores não queriam o café em Ribeirão
O plantio dos primeiros pés em Ribeirão Preto ocorreu há cerca de 140 anos, e passou a atrair empresários interessados na aquisição de terras.
Um deles, Martinho Prado Júnior. Em 1876, ele escreveu em “A Província de S. Paulo”, atual Estadão, que “os paulistas do Oeste de São Paulo, em geral, não suspeitam o quanto sua terra está na tela da discussão corrente em outras províncias”.
A partir daquela época, vislumbrava-se a “capital do café”.
Mas isso não sem muita resistência por parte dos primeiros fazendeiros, que foram os próprios povoadores da região. Até o final da década de 1860, eles resistiam à entrada do café, segundo o historiador José Ferreira Carrato deixou escrito.

“Cafelistas bárbaros”
Carrato conta que “exilados neste bruto sertão, sem comunicações, nem suprimentos externos, os povoadores abasteciam-se com os mantimentos de subsistência”, como arroz, feijão, milho, mandioca. Cita também a carne de bois que abatiam e de porcos mantidos em ceva. Tinham ainda pés de pimenta, batata, cará, ervilha, salsa; e figueiros, pessegueiros e marmeleiros para a sobremesa.
Não tinham, narra Carrato, muito que fazer e dedicavam boa parte de seu tempo para caçar onças, pacas e capivaras. Mas café, não queriam. “Eles tinham os cafelistas na conta de bárbaros, que levam os moradores à pobreza e à ruína”. Acabaram se rendendo.

Cabra aprovou primeiro ‘teste’ com o café
No livro “História do Café”, lançado recentemente, Ana Luiza Martins relata a origem do café como bebida. Foi no Século 15, quando um simples criador de cabras, em Kaffa, na Etiópia, observou que um de seus animais ficava eufórico após comer as folhas e os frutos do cafezal.
Aí o pastor Kaldi resolveu experimentar e se sentiu mais alegre e disposto para o trabalho. Depois um monge da região passou a utilizar a infusão de frutos para resistir ao sono enquanto orava.
O conhecimento sobre os efeitos da bebida se disseminou. Na Pérsia, hoje Irã, o café foi torrado pela primeira vez, no Século 16.

Faz bem à saúde
A autora descreve as floradas brancas dos cafezais, a colheita da cereja vermelha e o ensacamento do grão classificado, até se chegar ao líquido negro consumido mundialmente.
Um produto que, saboreado moderadamente, até quatro xícaras por dia, faz bem à saúde, dá prazer e alegria, segundo diferentes especialistas.
Também se espalha que o café espanta a preguiça, desperta e anima, dá energia e vitalidade.
No Brasil, 91% das pessoas acima de 15 anos tomam café diariamente, totalizando consumo em torno de 1.200 xícaras/ano ou 17,1 milhões de sacas, no ano passado.
O consumo interno vem aumentando a cada ano, com a previsão de, mantendo o ritmo, atingir 21 milhões de sacas em 2010, superando os Estados Unidos como maior país consumidor.

Café sustentou o império e fez a República
O dia 24 de maio é considerado o dia nacional do café porque é o dia em que, presumivelmente, o oficial português Francisco de Melo Palheta chegou ao Brasil, no Pará, com as primeiras mudas de café, trazidas da Guiana Francesa, em 1727.
A data é importante porque o café ainda é destaque no Brasil, maior país produtor, maior exportador e segundo maior consumidor, neste aspecto perdendo apenas para os Estados Unidos.
São mais de 280 anos de história do café no Brasil. No período áureo, grandes safras sustentaram o império e fizeram a República brasileira.
E Ribeirão Preto, como maior centro produtor, tinha força de decisão na política nacional.

O Brasil e o mundo
A produção brasileira este ano está estimada pela Conab em 45,54 milhões de sacas, bem mais do que no ano passado, face ao fenômeno da bianualidade (um ano bom, outro menos).
Em 2007, a produção brasileira atingiu 33,74 milhões de sacas; em segundo lugar ficou o Vietnã, com 17,5 milhões; em terceiro, a Colômbia, 12,4 milhões. Produção mundial de 117 milhões de sacas, em 57 países.
No Brasil, o café é produzido em 11 Estados e em 1.850 municípios.
Segundo a estimativa para este ano, Minas Gerais produzirá 22,9 milhões de sacas; Espírito Santo, 10,5 milhões; São Paulo, 4,72 milhões; Paraná, 2,36 milhões; Bahia, 2,36 milhões.

Funcafé recebe R$ 2 bi
O Ministério da Agricultura e o Conselho Monetário Nacional (CMN) liberaram cerca de R$ 2,2 bilhões para o Fundo de Defesa da Economia Cafeeira (Funcafé). O valor é destinado para financiamentos de operações de custeio, colheita, estocagem e aquisição do grão para o ano de 2008. A maior parte do dinheiro será investida nas operações de estocagem – R$ 898 milhões – e de colheita, R$ 496 milhões. (Agência Brasil)

Carlos Alberto Nonino
Especial para A Cidade

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