Especial
Sabado, 24 de Maio 2008 - 16h48
ALESSANDRA RUIZ Fez Biologia por influência de um irmão: hoje sabe que está no caminho certo
Um método que interfere no interior da célula humana, através da engenharia genética e que anula a progressão do vírus da dengue, poderá se transformar, no mínimo em cinco anos, num medicamento antiviral para o controle da infecção.
- Não se trata de vacina. Com base nesses estudos, a futura droga antiviral poderá impedir a progressão da dengue no organismo das pessoas, evitando as formas mais graves da doença - explicou a bióloga Alessandra Cristina Gomes Ruiz, do Centro de Virologia da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. Ela chegou a essa conclusão após pesquisa de quatro anos, que embasou sua tese de doutoramento defendida no início desse mês.
As investigações, segundo a bióloga, continuam agora em nível de pós-doutoramento, com macacos do Centro Nacional de Primatas de Belém, que tem a espécie que melhor manifesta os sintomas da dengue. Nesse caso, será usado o menor deles, do gênero Aotus, e que não está em extinção, também conhecido pelos nomes populares de macaco-da-noite, cuti-cuti, guti-guti, duruculi e marikiná.
- Os testes foram feitos in vitro com essa nova tecnologia houve uma redução importante na quantidade de vírus produzido pela célula. E esse método poderia, em tese, ser usado contra os quatro tipos da doença - garantiu o orientador da pesquisa, Benedito Lopes da Fonseca, coordenador do Centro de Virologia da Medicina, ao explicar que isso só não foi feito logo por problemas operacionais.
A técnica
Quando Alessandra Ruiz desenhou o modelo do vetor que interferiu nas células humanas do fígado e das que trabalham na defesa do organismo, para inibir a produção do vírus da dengue tipo 2, já previu sua utilização para todos os vírus conhecidos da doença. A técnica de interferência, descoberta em 1998, se vale de um mecanismo de defesa natural contra vírus e outros elementos. O método já rendeu no exterior até um Prêmio Nobel e pode ser usado contra várias doenças. No Brasil, é a primeira vez que se emprega em células humanas e para dengue.
- Conseguimos o “silenciamento gênico”, quando o mensageiro do DNA - que é o RNA do vírus - chega modificado na célula e ela imediatamente, em legítima defesa, degrada essa mensagem. Na prática significa a interrupção da doença - explicou a pesquisadora.
Mutante
Alessandra Ruiz, aos 33 anos, divide sua atenção entre as pesquisas avançadas e a família. Graduada em Biologia pela Barão de Mauá, de RP, depois de ter estudado apenas em escolas públicas, nunca imaginou que poderia chegar ao pós-doutoramento da melhor universidade brasileira.
Quando defendeu sua tese de mestrado, quatro anos atrás, o resultado também chamou a atenção do meio científico e da mídia: ela conseguiu padronizar um teste para dengue que indica rapidamente se o paciente está infectado, a quantidade da carga viral no organismo e o tipo do vírus.
Rubens Zaidan
Especial para “ A Cidade”