Especial
Sabado, 24 de Maio 2008 - 16h51 Ele é físico e professor da Universidade Federal Fluminense. Mas tem, como atividade vitalícia, o trabalho no movimento espírita brasileiro. Desenvolve um grande trabalho de assistência espiritual e material em Niterói, no Estado do Rio. Num périplo incansável, escreve e publica livros mediúnicos e viaja por mais de 40 países, fazendo conferências. Foi amigo pessoal de Chico Xavier, a quem visitou muitas vezes em Uberaba, MG.
Diz que a fé cega não tem valor, quando explica como concilia os conceitos da Ciência e do Espiritismo, “sem nenhum conflito, pelo contrário”. Em Ribeirão Preto, onde fez palestra, brinca sobre os grandes olhos verdes que chamam a atenção por onde passa: “aonde vou, meus olhos chegam na frente”, diz, bem-humorado.
Não é à toa que o médium José Raul Teixeira acaba de ter lançada sua biografia, de autoria do jornalista fluminense César Said. O livro comemora os 41 anos de atividades de Raul Teixeira, “nascido no berço do catolicismo” que, segundo ele pode ser considerado também o maior difusor do Espiritismo no mundo. Quem diz isso é o homem que, sem preconceitos, conseguiu estender uma ponte entre a Física e a religião. Ele conta que vive hoje, aos 58 anos, o que chama de “moratória”. Deveria ter morrido aos 36, num acidente de carro. Mas lhe foi concedido um tempo maior de vida, para que desenvolvesse esse trabalho no mundo todo. E ele obedece.
- O senhor sempre foi espiritualista?
- Sim. Na nossa casa todos se diziam católicos e desde menino participei das atividades da Igreja, fiz a primeira comunhão, fui batizado e crismado. Mas só vim a conhecer o espiritismo na adolescência, quando eu contava 17 anos.
- Como foi esse encontro?
- Foi quando eu conversei com um amigo meu sobre os fenômenos que ocorriam comigo desde a minha infância. Eu via as pessoas falecidas, via os espíritos, desde quando minha mãe orava diante das imagens de santos em casa para fazer a caridade. Eu via, muito pequeno, indivíduos atravessando as paredes, eu via pessoas descendo pelo telhado para vir falar com ela [minha mãe]; na minha infantilidade, acha aquilo tudo muito curioso. Não sentia nenhum tipo de medo. Minha mãe dizia que eram nossos irmãos da luz, quando eu perguntava quem eram. Ela os via igualmente. E me dizia: um dia eles chamarão você para trabalhar. E essas palavras de minha mãe se me fixaram como se fosse a fogo, na minha mente infantil, já que ela faleceu quando eu tinha apenas quatro anos de idade. E aí eu conversava, adolescente, com esse colega de infância. Eu era auxiliar do padre, era coroinha - e durante um período de minha vida eu quis ser padre. Aos 17 já não queria mais, mas era fiel ao meu trabalho na cruzada eucarística, na Igreja Católica. E conversando com ele sobre aquelas coisas que eu continuava vendo - e que o sacerdote me diziam ser do demônio - meu amigo disse: isso que você está me contando, Raul, lá onde eu freqüento, chamam de mediunidade. E me chamou para conhecer o lugar. Mas eu tinha medo de me aproximar do espiritismo, que considerava coisa demoníaca mesmo.
A mãe de meu amigo me disse: “vá ver o que é. Se não gostar, não volte. Mas não se impeça de ter essa experiência”. E eu fui conhecer a Mocidade Espírita e não saí nunca mais. Estou até hoje.
- Como é que o senhor optou pelo estudo da Física? Foi para juntar as pontas da ciência e da religião?
- Eu acredito que tenha havido sim essa intersecção. Quando comecei a estudar o espiritismo muito jovem, já era apaixonado pela Matemática. E ao ler os textos espíritas lia muito sobre ondas, sobre mentes, freqüências, vibrações e aquilo eu sabia que tinha o seu estuário na Física. Fui aprovado no vestibular para Física e os estudos me levaram a uma compreensão mais madura, menos mística, dos conhecimentos espíritas. Ao passo que o conhecimento espírita me deu uma visão espiritualista da Física. O porque de existirem os fenômenos naturais, os astros etc. De modo que os meus estudos de Física foram enriquecidos pelo conhecimento espírita. E o conhecimento espírita pelo de Física. Eles se complementaram.
- Nos 150 anos do Livro dos Espíritos, compilado por Allan Kardec [um francês], a Europa arrefece e o Brasil assume o papel de grande potência do Espiritismo no mundo. A que se deve isso?
- Essa é uma questão bastante interessante, quando pensamos nas raízes do Brasil. O país teve a felicidade de nascer sob o signo espiritualista, desde os índios que habitavam nossa terra e cultuavam divindades. Depois vieram para cá os portugueses- e seja qual for o caráter moral deles - vinham de tradições católico-romanas, admitiam com facilidade a existência de Deus e seres angélicos, seres espirituais. Depois vieram os espanhóis, também de formação católica. Então todos os povos que foram afluindo e influenciaram a formação brasileira, traziam esta abertura para o espiritualismo. No Brasil, até os poucos ateus que existem são “ateus graças a Deus”. Quando no Século 19 o espiritismo nasceu na Franca, os livros chegaram muito rápido ao Brasil, que tinha uma ligação muito forte com a França. E os grandes intelectuais foram os primeiros a ler as obras espíritas, porque elas vinham em francês. Depois passaram a ser traduzidos. Mas o primeiro grupo espírita brasileiro nasceu na Bahia, fundado por Luís Olímpio Telles de Menezes. A partir daí o Brasil tem essa facilidade de assimilar o discurso espiritualizante. Nós temos um encaixe psicológico muito fácil para aceitar coisas espirituais.Em razão dessa sua historiologia, o Brasil se tornou o difusor do espiritismo no mundo. Podemos dizer, sem medo de errar, que é o país mais espírita do mundo, digamos assim. Quanto à qualidade desses espíritas, aí é uma outra coisa a se discutir. Mas a crença, a aceitação, a admissão das coisas espirituais é muito mais fácil aqui. Antes de que alguém se torne espírita, é preciso que seja espiritualista. Quem nasce em países com caldo ácido de cultura, sociedades atéias, sociedades materialistas, niilistas, tem mais dificuldade nisso. Claro que isso faz sofrer muito. Quando você aprende que mesmo que saia do corpo, nunca sairá da vida, tem um conforto muito maior - saber que não acaba em nada, que os entes queridos desencarnaram, mas não morreram, isso dá muita esperança quanto ao futuro. Paulo de Tarso diz assim: “se Jesus Cristo ressuscitou, todos ressuscitaremos”.
- A Organização Mundial de Saúde aponta que a depressão vai ser a doença mais incapacitante, em termos de trabalho. Com o recrudescimento do materialismo, qual o papel do espiritismo - ou das religiões- para diminuir esse grande sofrimento humano?
- O que mais nos angustia é saber que essa depressão que as pessoas estão vivendo se deve às religiões. De modo geral, às religiões que foram surgindo em cada esquina, como “merchandising”, interessadas em tirar dinheiro das criaturas. E as pessoas continuam vivendo seus dramas sem resposta. Então estamos vendo multidões na busca de um Deus que os religiosos não conseguem lhes oferecer. O querem deles é a “plata”, o dinheiro, a dádiva material. Você se sente um permanente explorado, um permanente doador e não recebe em troca. Quem dá coisas materiais, espera coisas materiais em troca. Toda propaganda aborda coisas materiais: fulano tinha um carro,agora tem dois. Fulano mudou de emprego, de mulher, de casa... é tudo no mundo das coisas. A princípio as pessoas querem as coisas materiais. Mas depois se dão conta de que falta o mais importante. A harmonia interior. Isso vai deprimindo. Existe também o fanatismo: se não fizer desse jeito, vai para o inferno! Então estamos voltando à Idade Média, em que Satanás coordena a vida das pessoas. Os indivíduos não têm amor a Deus, têm medo do demônio. Como é que a gente vive amedrontado? Deprimido! Não é bom. A partir do momento que você se der conta de que a fé não é simplesmente o que você aceita, mas o que você cria a partir da sua sensibilidade intelectual, essa é a importância da fé raciocinada, que o espiritismo propõe. É necessário desenvolver essa fé raciocinada, desconfiar sempre do que não for lógico para o nosso juízo. Se eu aceito alguma coisa que eu não entendo, me torno fanático.
(Participou João Vicente)