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Sabado, 24 de Maio 2008 - 16h54

Casos recentes reabrem o debate sobre abusos


Revelados recentemente, os casos da mulher austríaca mantida como escrava sexual do próprio pai por 24 anos, desde a infância, e da nadadora brasileira Joanna Maranhão, que acusa um ex-técnico de violentá-la, recuperaram o debate sobre abusos contra crianças e adolescentes.
Vítimas como Joanna e Elisabeth Fritzl sofrem este tipo de violência silenciosamente durante anos sem que ninguém saiba – ou ajude. Como mostram os dois casos, o crime sexual não está restrito a classes sociais mais baixas. Na maioria das vezes acontece entre membros da própria família ou pessoas próximas, como vizinhos e professores, o que inibe denúncias.
Uma recente pesquisa realizada pelo Departamento de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto mostra que na região administrativa de RP, universo que compreende 25 cidades, ocorrem 100 abusos a cada 56.089 crianças, mas menos de 1/3 são denunciados. “E, muitas vezes, quando os casos são comunicados, a pessoa que apoiou a denúncia é a primeira a cercear a vítima”, informa o promotor da Infância e Juventude, Fernando Abujamra, da comarca de Sertãozinho.
Concluída no ano passado, a pesquisa estudou 53.225 alunos de escolas públicas e particulares de Ribeirão Preto e região por meio de entrevistas feitas com professores – os educadores são considerados os profissionais mais aptos a identificarem os sinais de abusos.

Medo da repressão
Em Ribeirão Preto, o número de denúncias subiu de 108 em 2006 para 147 no ano passado. Segundo Marília Gomes, coordenadora do programa Sentinela, projeto de combate à violência infantil, mesmo que tenham aumentado, os registros são uma amostra tímida da realidade. Ela acredita que cerca de 80% dos casos ocorridos não chegam ao conhecimento das autoridades responsáveis.
Marília relaciona o número de denúncias à dificuldade que a vítima tem de expressar a agressão. “A criança sofre violência psicológica do agressor, que a ameaça com repressão física. Como a maioria dos casos acontece em ambientes familiares, ela tem medo de ninguém acreditar e fica vivendo a situação por anos”, aponta.
De acordo com o presidente do Conselho Tutelar de Sertãozinho, Braz Carmona, a conivência também atrapalha as denúncias. Segundo ele, as pessoas só comunicam um caso de abuso sexual quando o agressor é um inimigo ou desconhecido. “Se há relação de amizade ou simpatia pelo criminoso, as pessoas fazem vistas grossas para o problema”.
Para a professora e psicóloga Marina Rezende Bazon, coordenadora da pesquisa da USP, ainda falta discernimento para entender que o abuso não se resume somente à relação sexual física. Gestos como mostrar um filme pornográfico à criança ou suscitar excitação configuram o mesmo crime. “Se a sociedade não tiver essa visão ampliada, muitos casos vão continuar passando despercebidos”.

Como combater
Os especialistas elegem a principal forma de combate ao problema: o estímulo à denúncia. “Precisamos que sociedade e autoridades se unam para enfrentar a violência. Se somarmos forças, poderemos reduzir o número de casos”, acredita a coordenadora do programa Sentinela em Sertãozinho, Márcia Guidi Sarti.

LUIZ ADOLFO
Especial para A Cidade

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