Vicente Golfeto
Segunda-Feira, 26 de Maio 2008 - 22h50 Num passado recente tínhamos muita ideologia e poucas idéias. Parece que a era das ideologias já passou, sepultada – que foi – com os escombros do muro de Berlim, que foi derrubado em 1.989. Junto com as ideologias, desapareceram as poucas idéias novas que, até então, surgiam. Mesmo a ciência do mercado – a Economia – definitivamente deixou de ser território das discussões ideológicas. Resume-se, atualmente, apenas à tecnologia.
Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, de 03/2/2008 no caderno Mais!, o escritor francês Michel Houellebecq diz que “romances sempre haverá. E bons. Um pensamento novo, entretanto, há séculos não temos”. Talvez Houellebecq tenha exagerado. Mas, exatamente por aí pode-se entender os dias de hoje, quando a pressa praticamente impede a reflexão.
Contos nascem de conflitos. E a sociedade de um século atrás para cá – tempo demarcado por Houellebecq – está cada vez mais atritada, cada vez gerando uma quantidade maior de choques. Por causa da competição agudamente instaurada, combinada com o crescimento do ego – decorrência da imposição do individualismo – gera-se o caldo de cultura para os conflitos. Que são a matéria-prima com que se faz contos.
O egoísmo é natural. O individualismo é cultural.
A reflexão, o pensamento, as analogias brotam com o isolamento do pensador, de sua solidão. Que fica cada vez mais difícil pelo próprio domínio da pressa.
Assim, romances e contos não apenas continuarão existindo, como poderão superar os do passado. Difícil – eu sei – superar Balzac, considerado o pai universal dos romancistas. Mas não impossível. Impossível mesmo seria ter uma obra de pensador do tipo de um Alexis de Tocqueville, com sua – para ficarmos apenas com uma obra – Democracia na América, seminal para todo estudo de ciência política. Romances nascem com cronômetros. Pensamentos novos só surgiriam, no entanto, com a volta da ampulheta.