Jornal A CIDADE

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Hamilton de Andrade Lemos

Terça-Feira, 27 de Maio 2008 - 23h7

Vidas expostas


O preço da paz é a eterna vigilância. A frase certamente veio de um tempo em que as câmeras eram menos comuns. Agora, ao menor escorregão, tem sempre alguém para ver e, pior, registrar a mancada.
No Centro da cidade elas fazem um serviço útil. Como não temos dinheiro suficiente para um policiamento in loco, pagamos para espalhar câmeras poderosas por pontos estratégicos. Há uns dois dias uma delas flagrou um mané tentando roubar a loja. Sova no safado, dentro das rígidas regras dos direitos humanos, claro.
Os estabelecimentos comerciais também estão cheios delas. Em alguns países elas já servem para analisar hábitos de consumo no ponto de venda. Aqui, por enquanto, têm a tarefa de vigiar quem abre a embalagem de bombom para fazer uma boquinha. Nos elevadores também tem. Molecagem como apertar todos os botões de uma só vez, escrever o nome com canivete ou roubar botões estão acabando graças a elas. Até aquele amasso dentro do elevador está proibido, salvo se você for da turma dos exibicionistas. Tirar meleca do nariz, nem pensar.
Em qualquer outro lugar, temos as câmeras dos celulares. Um flagelo da sociedade moderna que, unida à Internet, tornou-se uma ameaça a favor da moral e dos bons costumes. Pisou na bola, lá está você exposto para o mundo inteiro. É tecnologia a serviço da morte social. O único lugar em que as câmeras não chegaram é dentro de casa. Embora muitos tenham webcam ou filmadora, ainda mantemos controle sobre elas. Mas, pela progressão, é por pouco tempo. Só quero ver onde vamos nos esconder, para fazer o que fazemos quando ninguém está olhando. Saudades do tempo em que só “Deus estava olhando”.

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