Jornal A CIDADE

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Vicente Golfeto

Quarta-Feira, 28 de Maio 2008 - 23h20

Rádio Nacional


Eu teria seis anos de idade? Não. É quase certo que não passava de cinco. Corria o final da década de quarenta do século passado. Nesse tempo, o rádio se interiorizava com a velocidade da televisão nos anos setenta. A Rede Globo da época – sem exagero – era a Rádio Nacional, assim anunciada pelo locutor: Rádio Nacional, Rio de Janeiro, Brasil.
A nostalgia bate doída no peito da gente. Vêm-me à mente muitas pessoas queridas, já falecidas. A morte é onde mora a saudade.No período da tarde, com aparelho sintonizado na Rádio Nacional, ouviam-se novelas. As preferidas, aliás, tanto da minha mãe quanto de suas amigas, que se reuniam em minha casa para comentar os capítulos. Com galãs, vilões e tudo.
Eu não me interessava pelo enredo. Nunca tive paciência para acompanhar novelas, diminutivo de nova. Novela, do italiano, é coisa nova. Mas, sempre pensei que novela viesse de novelo. De novelo de linha, porque me lembrava – e ainda me lembra – de coisa enrolada. Fica difícil achar o fio da meada.
Pela confusão gerada pelas novelas da Rádio Nacional demorei a aceitar ler novelas. Até de Prosper Merimée, autor da extraordinária Carmem.
Eu me interessava mesmo pela trilha sonora, pelo fundo musical. Com aquela idade, ouvia o anúncio: novela de Guiaroni, Vidas mal Traçadas. O fundo musical, a trilha sonora? Vamos lá: a valsa das flores, de Piotr Tchaikowiski e música cantada por Francisco Alves, o rei da voz.
Certa tarde – depois de notícia que indicava viagem do presidente da República, marechal Eurico Gaspar Dutra – meu avô viu-me ouvindo o fundo musical. Ele prestava mais atenção na Valsa das Flores do que na bonita música cantada por Francisco Alves. E viu que eu começava a gostar de música. A partir daí, ganhei sua companhia para concertos, recitais e óperas. Mais no Municipal de São Paulo mas também no Pedro II, de Ribeirão Preto. Em 1952, fomos ouvir Hélio Gori.

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