Hamilton de Andrade Lemos
Quarta-Feira, 28 de Maio 2008 - 23h20 Quando o fato acontece esparsamente, atribuímos ao acaso. Se a coisa repete-se ou perdura, temos então um fenômeno a ser observado com mais atenção.
Motoristas andando na contramão estão se proliferando como mato. E não é exatamente problema de tráfego. Na verdade, penso que têm pouco a ver com o estresse do trânsito, derivado de congestionamentos e da inflação da frota. O carro é somente o veículo da fúria. Todos devem se lembrar de um desenho animado em que o Pateta, até então um pacato cidadão, transforma-se em monstro ferocíssimo ao entrar em seu automóvel. Além de engraçado, uma metáfora deliciosa do que representa o automóvel enquanto instrumento de poder.
Não faça de seu carro uma arma. Um dos célebres slogans do passado também dizia muito sobre o mesmo assunto. Um carro é uma arma fácil e poderosa. Assim, caso você tenha alguma sociopatia, algum distúrbio psicológico ou esteja a ponto de bala contra a opressão destes tempos, basta sacar o volante e sair em protesto.
Andar na contramão é, antes de tudo, protestar. Contra as frustrações pessoais, contra a agressividade do mundo que estamos construindo e contra aquilo que este mundo está nos devolvendo. Na contramão, a 100 quilômetros por hora, fica mais claro que estamos nos colocando em rota de colisão também no sentido mais amplo. E por mais que os outros carros desviem, o desastre é inevitável.
Da maneira como estamos vivendo, do jeito como estamos tratando e sendo tratados pelo próximo e da forma como estamos (des)cuidando do mundo, vai acontecer a mesma coisa. Estranho é que precisemos de alguns motoristas malucos para nos alertar sobre isso.