Jornal A CIDADE

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Marcelo Canellas

Sabado, 31 de Maio 2008 - 14h11

Sobre o erro


Detesto errar. Mesmo assim, eu erro pra chuchu. Tenho leitores amáveis que me avisam sobre um engano, uma distração, um lapso. Sou muito grato a todos eles. Mas vamos falar claro: o nome disso, infelizmente para o meu amor-próprio, é erro mesmo.
Cinco leitores me escreveram para corrigir a confusão que fiz sobre as cidades da Transamazônica. Escrevi Xinguara querendo falar de Marabá. Percorri tantas vezes o trecho entre Altamira e Marabá, no sul do Pará, que o sol equatorial daquela região deve ter derretido os meus miolos. Ainda não me perdoei por esse erro. Mas fiz pior: botei Piripiri no Ceará. Como já fui três vezes a Piripiri, eu deveria estar cansado de saber que essa cidade fica no Piauí. Mas não. Foi preciso que duas leitoras de Teresina e uma de Fortaleza me escrevessem para desfazer o equívoco. Pelo menos fiquei sabendo que tenho leitores no Nordeste. Mas precisava descobrir desse jeito? Logo por causa de uma besteira que fiz? Paciência.
Diante de um erro que cometeu, o cronista só tem uma providência a tomar: assumi-lo e corrigi-lo na próxima crônica. Tenho um amigo que me diz que sou rigoroso demais; para ele, crônica não é notícia, e cronista não tem compromisso com a verdade. Cronista pode inventar. E tem muita crônica que é ficção mesmo. Cronista, me diz esse amigo, tem todo o direito de mentir. Pode até ser. Mas, no meu caso, não dá pé. É que antes de ser cronista, sou jornalista. No jargão do nosso ofício, erro é barriga. E pior do que dar uma barrigada é não desfazê-la. No jornalismo, por mais que isso doa, errar e não corrigir o erro não é apenas um desleixo, é um desvio ético muito grave.
Carrego mais essa, entre tantas manias que acumulei ao longo de mais de vinte anos de jornalismo: não consigo separar o jornalista do cronista. Por isso, mea culpa, mea maxima culpa. Como penitência, prometo mergulhar nos compêndios de geografia. Enquanto isso, caros leitores, não me abandonem. Se eu pisar na bola de novo, puxem minha já doída orelha.


*Marcelo Canellas é jornalista e repórter especial da Rede Globo

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