Especial
Sabado, 31 de Maio 2008 - 15h56
VIDA RURAL BEM PERTO DA URBANA Ruas de terra, criação de galinhas, madeira para cortar lenha para o fogão: cenas da Água Vermelha
Enquanto o fluxo de trânsito ainda é intenso nas principais ruas e avenidas de Sertãozinho, o segundo turno de trabalho começa em muitas indústrias e o movimento de bares e restaurantes apenas se inicia, o dia está terminando às 19h para o agricultor José Augusto Silva, que mora a menos de três quilômetros da praça central da cidade. “Esse horário aqui não tem barulho nenhum e eu só vou acordar às 5h do outro dia com os passarinhos cantando”.
Aos 41 anos, José Augusto faz parte de uma das cerca de 40 famílias remanescentes da Água Vermelha, bairro de 110 anos, nascido antes do surgimento oficial de Sertãozinho. Cercado por indústrias e áreas de cana, Água Vermelha é um território habitado por descendentes italianos e portugueses que migraram para a região atraídos pela possibilidade de trabalhar nas lavouras de café da antiga Companhia dos Ingleses Dumont, que absorvia toda a mão-de-obra recém-chegada. A empresa posteriormente loteou o espaço em glebas, que foram vendidas para seus antigos funcionários.
Donos das terras, os imigrantes passaram a plantar para o próprio sustento. “Também cultivávamos mamona, milho e algodão para vender a cerealistas. Depois, há mais de 40 anos, veio a cana e substituiu tudo”, lembra o produtor rural Augusto Silva, o Gustão, de 77 anos.
Hoje, a cana-de-açúcar é o negócio de quase todas as famílias mantidas no local, que abriga membros da 2ª, 3ª e 4ª geração de moradores da Água Vermelha. A solidão dos jovens em terras estranhas explica os casamentos de integrantes das famílias vindas do mesmo país. “Aqui todo mundo é meio parente. São cinco sobrenomes tradicionais: Silva, Lovato, Ancheschi, Mazer e Nadaleto”, conta Gustão, nascido no bairro.
“Não tem vida melhor”
O bairro mantém costumes arraigados. A terra ainda é o pavimento das estradas e ruas, que com o tempo deixaram de formar uma colônia e ganharam nomes próprios – e por onde os carros dividem espaço com porcos, carneiros, galinhas, gansos, cavalos e burros.
As casas passaram por pequenas reformas, mas sustentam a arquitetura tradicional – por fora e por dentro, onde os fogões a lenha preparam os alimentos cultivados no próprio quintal. “Temos carne de porco, carneiro, leite fresco, queijo, verdura, fruta, milho e até peixe no açude. O que não falta aqui é saúde”, comenta José Augusto. Com sobras de abacate, restos de gordura e sebo, os moradores produzem sabão para lavar roupa. Uma fábrica artesanal também confecciona, a partir de planta homônima, as vassouras usadas na limpeza das casas – itens comprados por indústrias, supermercados e prefeitura da cidade. Segundo José Augusto, os moradores só vão à cidade para comprar artigos de higiene, limpeza e alimentação que não podem ser produzidos localmente e para consultas médicas. “Não gosto de sair nem para ir ao mercado. Não tem vida melhor do que esta. Aqui não tem barulho, poluição e violência”, diz.
Internet
Gustão se aventurou fora dos limites da Água Vermelha mas voltou. Não suportou a vida da cidade por mais de cinco anos. “A terra é o meu lugar. Pessoas como eu, da 2ª geração da Água Vermelha, só saíram daqui quando Deus levou”. Crianças como os netos de Gustão, que formam a 4ª geração, porém, começam a ser seduzidas pela modernidade. Os antigos rádios já dividem espaço nas casas com computadores e até internet. “Eu mesmo uso a internet para ver o preço da cana e a previsão do tempo”, admite José Augusto. Para moradores tradicionais, a exposição à modernidade pode significar o fim do bairro, no futuro: As crianças já manifestam o desejo de morar na cidade”.
Assédio das indústrias pode mudar bairro, dizem moradores
Além do desejo das crianças de trocar a vida rural pela urbana, o bairro, localizado às margens da Rodovia Armando Salles Oliveira, no perímetro industrial da cidade, sofre assédio das empresas da cidade.
Segundo o presidente da Associação de Moradores da Água Vermelha, Luiz Augusto da Silva, o Luizão Caminhoneiro, as indústrias da cidade precisam se expandir e não há mais espaço físico no local onde estão instaladas – o bairro passa a ser a única alternativa. Por isso, fazem propostas altas pelas terras da Água Vermelha.
O produtor Augusto Silva, o Gustão, conta ter recebido recentemente uma proposta de R$ 3 milhões por um terreno de mais de 70 mil m² onde planta cana. “É um valor tentador, mas não vendo de jeito nenhum. Um dia, daqui a alguns anos, pode ser que os valores falem mais alto para os nossos netos”, acredita.
O próprio Gustão vendeu há quatro anos um terreno de 30 mil m² para a mesma indústria que o procurou agora. Segundo ele, na época, a cana-de-açúcar vivia patamar de preços ruins no mercado, o que o motivou a aceitar a proposta. Segundo Luizão, pela mesma razão, muitas áreas da Água Vermelha já foram ocupadas por indústrias.
Local tenta preservar tradições
A cessão de áreas para a atividade agrícola e industrial e a migração de algumas famílias para a cidade acabaram com costumes antigos na Água Vermelha. No local onde existia o campo de futebol do bairro, que reunia dezenas de pessoas aos domingos, hoje há o cultivo de cana.
O antigo engenho de cachaça não resistiu à concorrência das destilarias e encerrou atividades há 15 anos – o local hoje é usado para a criação de animais e funciona como um estábulo improvisado para cavalos. Com a morte das matriarcas, as novenas semanais também se extinguiram.
Mas muitos hábitos não sucumbiram ao tempo. A igreja, patrimônio do bairro, foi totalmente reformada e recebe missas mensais. Uma vez por mês, também é organizado o “almoço italiano”, evento que recebe visitantes da cidade e arrecada fundos para a paróquia local.
As comemorações de junho também foram mantidas. O dia de São João ainda é celebrado com uma grande festa junina que inclui a tradicional quadrilha dos moradores.
Único comércio do local, a mercearia da Água Vermelha segue a tradição de aceitar fiado e confiar na palavra do morador. “Mas a principal característica, que não muda, é a união das pessoas. Se alguém matar um porco para comer, leva um pedaço para cada casa do bairro”, diz Luizão Caminhoneiro.
LUIZ ADOLFO
Especial para A Cidade