Classe A
Sabado, 31 de Maio 2008 - 18h33
"Um vereador, pediu a palavra e falou: 'não sei porque o dr. Isac se incomoda tanto com aeroporto. Avião é coisa para rico e não temos que ficar pensando nisso'"
Isac Jorge Filho formou-se médico pela USP de Ribeirão em 1967 e, como herança da política estudantil, foi incentivado a entrar na política partidária. Fez uma campanha discreta: avesso a poluir a cidade, não pichou um muro sequer. Mesmo assim, elegeu-se vereador e em seguida ocupou a Secretaria do Planejamento na primeira gestão de Antônio Palocci Filho. Depois, entrou para a política setorial, ocupou por três vezes a gestão do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) e está novamente na diretoria da entidade, onde briga em nome da ética da vida. Mas não abre mão do trabalho de gastroenterologista: aos 66 anos de idade, o marido da doutora Leila Jorge, também médica atuante, realiza pelo menos duas cirurgias por semana.
ENTREVISTA A ROSANA ZAIDAN, HÉLIO PELISSARI E DELCY MAC CRUZ
Rosana Zaidan - O sr. nasceu em Ribeirão Preto?
Isac Jorge Filho - Não. Sou mineiro de Monte Carmelo. Brinca-se muito quando se diz que existem algumas pessoas importantes nessa cidade. E a mais importante não é Mário Palmério [famoso escritor nascido na cidade em 1916], mas nós (risos). É uma brincadeirinha.
Delcy Mac Cruz - A Medicina já era uma atividade profissional exercida entre seus familiares?
Isac - Não. Só a vontade, que acho ser meia atávica dos árabes, de querer ter filhos médicos. Isso é bem árabe. Se bem que lá em casa foi diferente. Meu pai (Isac Jorge) chegou do Líbano criança, aos 11 anos, e foi para a lavoura plantar fumo.
Hélio Pelissari – Na lavoura, e não no comércio? (risos)
Isac - Sim, e foi plantar fumo. Inicialmente em uma cidadezinha chamada Palestina. Depois, antes de Monte Carmelo, ele foi para Nova Ponte. Papai tem uma coisa interessante. Ele é de uma vilazinha libanesa do Norte, de onde saíram várias famílias para a região, como os Said (da pedreira) em Ribeirão e os Jabur de Jardinópolis. E quando meu pai chegou ao Brasil, a primeira cidade que morou foi Ribeirão Preto, por causa de um irmão mais velho, que já residia na cidade.
Rosana - Como é que o sr. foi por esse caminho da bioética? O que o atraiu?
Isac - Essas coisas vão se formando ao longo da vida. Papai estudou dois meses aqui no Brasil, mas ele era um sábio. Acho que as pessoas pensam isso de seus pais, e eu penso do meu. Ele sempre cultuou muito essa história de honestidade, de ética, de moral, de se ter responsabilidades, do fio de cabelo. Fui criado com isso. Depois, quando vim para escola de Medicina em Ribeirão Preto, tinha professores que enfatizavam muito isso. Na relação médico-paciente, na importância dos aspectos éticos, dessa relação, do respeito ao paciente, do respeito à autonomia do paciente. Aprendi muito a respeito dentro da faculdade. Isso era uma das coisas que diferenciava a faculdade de Medicina em Ribeirão Preto. Paralelamente ao curso médico, fui professor de cursinho por doze anos. Quer dizer, terminei o curso médico e continuei no cursinho. E foi uma época do boom da ecologia. E ecologia era uma das disciplinas que eu lecionava. De repente fui para o Conselho Regional de Medicina. Aí, então, você começa a trabalhar bioética todo dia, na prática. Tem contato com polêmicas bioéticas que acabam se transformando em processo. Como quando processa fulano porque tinha apenas um respirador na Unidade de Terapia Intensiva. Havia dois pacientes precisando, mas se usou em um e não em outro. E a família do que não usou denuncia. Problemas desse tipo começaram a aparecer muito em minha vida como conselheiro da entidade. Na realidade, a bioética sempre existiu.
Mac - O que é bioética?
Isac - Se se pegar etmologicamente, bio é vida. Então é ética da vida.
Mac - Não é restrita a médicos?
Isac - De jeito nenhum. A bioética cuida do desenvolvimento qualitativo. Cuida de melhora de vida. Está cercada de quatro príncipios. Há o princípio da beneficência: uma ação é boa quando beneficia alguém. Há o príncipio da não-maleficência: não basta fazer o bem, porque é preciso que não se faça o mal. Pegue-se, por exemplo, o transplante de rim. Houve uma beneficência para quem recebeu o rim, e quem perdeu não perdeu nada, porque são dois rins. Se se faz transplante de um pedaço de fígado, que hoje existe, você beneficia quem recebeu e pode ser que quem perdeu possa também perder a vida. Então há um componente de maleficência. Quem doou vai ter que ser claramente orientado no sentido dos riscos. Outro princípio é o da autonomia. O grande pulo da bioética foi Nuremberg, cidade alemã no estado da Baviera, onde ocorreu o Julgamento de Nuremberg [que sentenciou criminosos nazistas] e onde houve a Declaração de Nuremberg com relação a pesquisas feitas em seres humanos. Até então, essas pesquisas não eram controladas e nem sempre visavam o bem-estar de quem as realizava. Em Nuremberg, pela primeira vez, foi criada a figura de um comitê que analisa as propostas de pesquisa envolvendo seres humanos. Isso hoje está bem desenvolvido. No Brasil temos a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Comep) e em cada instituição de pesquisa temos o Comitê de Ética em Pesquisa. Uma pesquisa só pode ser feita depois de passar por esses comitês. E, como tinha dito antes, é muito importante nisso tudo a autonomia. Vou dar alguns exemplos do que ocorria antes. No período do nazismo, havia experiências absurdas feitas pelos médicos nazistas. Uma delas era tentar perceber qual era a resistência das pessoas ao frio. Colocava-se, então, pessoas em tanques em diferentes temperaturas, onde eram medidas pressões, pulsos. Também avaliava-se a resistência de vida: quando essas pessoas morriam. É um absurdo, mas que não foi o primeiro.
Rosana - Houve outros casos?
Isac - Muito antes, na Europa e nos EUA, já se tinha experiências semelhantes. Nos EUA, uma senhora tinha câncer em uma das mamas e procurou um médico. Ele viu que não dava para fazer mais nada, porém estava muito interessado em saber se a implantação de célula cancerígena fazia crescer um tumor. O que ele fez? Tirou um pedaço da mama cancerosa e transplantou para a mama sem câncer para ver se crescia. Sem nenhuma autorização da paciente. Interessante é que isso sempre é feito sob a cortina de uma benemerência. Esse médico, por exemplo, justificava no trabalho que publicou que não poderia dizer para a paciente que não havia nada para fazer, porque ela ficaria desesperada. Então, segundo ele, fez esse pequeno ato de tirar esse pequeno pedaço para dar esperança a paciente. Olha que hipocrisia! Primeiro essa é uma experiência que envolve alta maleficiência, sem nenhuma beneficiência e sem autonomia. Hoje, tem-se orientado muito os médicos no sentido de quando forem fazer procedimentos de risco maior, passar ao paciente o que se chama consentimento informado. É um manual em que está escrito que se propõe uma operação assim, os riscos são esses, na literatura tem tantos por cento de casos de mortes, de não dar certo. Nada em letras pequenas. Manda o paciente levar para casa, ler com cuidado, depois assinam ele e testemunhas. Para que serve isso? Não é salvo-conduto para médico fazer besteira. Não dá o direito do médico errar. Mas esse consentimento garante que o paciente sabia o que seria feito, e sabia dos riscos. Então esse consentimento informado vem na esteira da autonomia.
Mac - E o quarto princípio da bioética?
Isac - É o da justiça. Na verdade, preferimos chamar de eqüidade. Se se pegar a justiça comum, diz que todos são iguais perante a lei. Então quem rouba uma galinha, porque está passando fome, é tão criminoso quanto o do colarinho branco. Na bioética não é assim. Ela entende que todos são diferentes, que aqueles que precisam mais devem receber mais.
Rosana - Quais os casos de violação da ética que mais o sr. enfrentou?
Isac - Tem de tudo. Temos violações de todos os tipos imagináveis.
Hélio - Tem crescido esse número de casos?
Isac - Sim, e tem crescido de uma maneira desproporcional ao aumento da população e ao aumento do número de médicos, o que faz a gente pensar que existe alguma coisa na formação, ou na técnica ou na ética. Está aumentando o número de denúncias? Está, é aritmético. Mas aumenta por quê? Vamos pensar um pouco: se cresce o número de médicos, então são mais profissionais suscetíveis de serem denunciados. Se aumenta a população, é mais gente para denunciar. Se cresce a consciência da população em relação aos seus direitos, isso também leva a aumento das denúncias. Mas a impressão que se tem é que o aumento do número de denúncias é ainda maior, mostrando que se tem não só o aspecto quantitativo, mas também o qualitativo. É possível que a formação de médicos deixe a desejar em muitas das escolas.
Rosana - Isso é gravíssimo.
Isac - Sim, principalmente no que tange aos aspectos da relação médico-paciente. Essa aparente queda da condição de formação dos médicos é uma das preocupações do Cremesp.
Mac - E o que se deve fazer para resolver isso?
Isac - Propusemos algumas coisas e uma delas é a avaliação externa dos alunos e dos médicos formados. Fizemos isso experimentalmente por três anos.
Rosana - Que tipo de avaliação?
Isac - Contratamos a Fundação Carlos Chagas para fazer uma prova para a residência e outra para o estudante que estava saindo. E os melhores colocados passavam também por uma prova prática feita com simuladores. Essa avaliação encontrou uma reação muito grande, tanto por parte dos alunos como de professores. E o fato é que o exame, como era opcional - só fazia quem queria -, mostrou que o nível de acertos era mais baixo do esperado. Pior: foi piorando a cada um dos três anos em que foi aplicado. Hoje penso que o ideal é ter uma avaliação em três momentos do curso médico. Uma ao fim do segundo ano, outra ao quarto ano e uma terceira ao fim do sexto ano. Elas segurariam quem não passasse de ir para o ano seguinte.
Mac - Seria uma iniciativa da própria instituição de ensino?
Isac - Sim, mas com um componente externo. Convida, por exemplo, o Cremesp para participar. Porque as escolas falam que os alunos são examinados no curso médico. E são. Mas passam. Dificilmente se vê um aluno ser reprovado em curso de medicina. Aí costumo brincar: ou nossos estudantes de medicina são gênios ou então tem alguma coisa errada. E não são gênios, tanto que na hora de fazer o exame de residência a coisa aparece.
Hélio - Como explicar a contradição de Ribeirão Preto, que é grande centro médico, mas tem a saúde pública horrível?
Isac - Sim, porque essa saúde é estruturada em cima de um esquema que não prima pela qualidade. E vou dizer uma coisa: a saúde pública em Ribeirão ainda é boa. Porque se tem um HC, que dá sustentação, o próprio sistema do SUS, as unidades básicas são razoáveis. Mas se tem que valorizar a formação do médico - e do enfermeiro e de outros profissionais da área. E dar condições de trabalho. Significa não deixar sair para prestar serviços à comunidade, se não tiver boa formação.
Hélio - O sr. já viveu o outro lado, o lado público, como secretário do Planejamento (na primeira gestão de Antônio Palocci na prefeitura de Ribeirão Preto, entre 1993 a 96). Como é essa contradição?
Isac - Para mim não é contradição. Durante todo o tempo em que estive como vereador (entre 1993 a 96, pelo PSDB), ou à frente da Secretaria de Planejamento, bati sempre na mesma tecla. A maior parte dessas coisas não é municipal, mas nacional.
Rosana - Por que o sr. desistiu da política partidária?
Isac - Não sou homem que me eleja. Eleger requer alguns tipos de comportamento, de atitudes, que não sei fazer. Aliás, nem sei porque fui parar nisso.
Mac - Por que o sr. saiu candidato a vereador?
Isac - Porque desde estudante sempre fiz política estudantil. E me diziam que eu deveria ir. Um dia me pegaram bem-humorado e fui. Eu gosto de política, tanto que faço política médica até hoje. Tenho alguns episódios que não esqueço e que me marcaram muito na Câmara. Em um deles, eu estava na tribuna, falando a respeito do Aeroporto Leite Lopes - e quem começou a brigar pelo projeto de internacionalização desse aeroporto fui eu -, e um vereador, que não vou citar o nome, pediu a palavra e falou: “não sei porque o dr. Isac se incomoda tanto com aeroporto. Avião é coisa para rico e não temos que ficar pensando nisso”. (risos)
Hélio - E sobre sua passagem na Secretaria?
Isac - Na Secretaria fizemos um trabalho de que me orgulho muito. Primeiro as pessoas ficavam espantadas porque um médico assumia a Secretaria do Planejamento. Eu estava lá como político e o planejamento tinha uma vertente, que é a do desenvolvimento social, que quem começou foi o ex-secretário da Saúde Luís Carlos Raya (1934-2004). Fizemos o Plano Diretor do município, aliás assinado por mim. Ficaram faltando as leis complementares, que faltam até hoje (risos). E pior: para estruturá-las foi contratado pessoal técnico, com investimento do município, e o governo seguinte depois jogou fora. Me lembro que quando passamos o Plano ao governo seguinte, mandei fazer doze livretos grossos de planejamentos de diferentes áreas. E na hora de entregar esse material ao secretário que me sucedia, vira um integrante da nova equipe e diz: “Mas isso é só projeto”. Eu lhe disse: “Acho que o sr. está na Secretaria errada. Aqui é Planejamento, para fazer isso. Obras é com a Secretaria de Obras” (risos). Ninguém nunca mais mexeu naquilo. São doze calhamaços de projetos, prontinhos. É o trabalho de quatro anos da Secretaria de Planejamento.
Hélio - Sobre a internacionalização do Leite Lopes, como o sr. vê esse projeto?
Isac - Desde o começo há a discussão sobre o tamanho da pista. Ela tem um sentido. Depois iniciaram-se outras discussões como, por exemplo, a população do entorno. Ela sempre vai existir em qualquer lugar que se fizer o aeroporto. Se se prepara a área, o pessoal se apossa. Tanto que depois que começou a se falar no projeto de internacionalização, e de indenizações, a população do entorno triplicou. Quando vim para Ribeirão, não havia essas moradias, só o aeroporto. Então não foi o aeroporto que veio e entrou na cidade. Foi a cidade que entrou no aeroporto. E tem outro aspecto, que é o Aqüífero Guarani. O impacto dele ainda não foi estudado e o pessoal chuta. Me lembro que na fase mais ativa de briga contra o aeroporto, pessoas andavam com faixas em que os dizeres eram “contra o aeroporto, pelo Aqüífero Guarani”. Encostei em um desses participantes e perguntei: o que é esse Aqüífero?. E ele: “eu não sei o que é, mas é ruim pra caramba” (risos). O Guarani pega praticamente toda a América Latina. Tem milhares e milhares de afloramentos. E é o afloramento do aeroporto que vai trazer problemas para o aqüífero? É brincadeira. O que há por trás disso, a meu ver, é uma briga entre o Daesp (Departamento Aeroviário, ligado ao governo estadual) e a Infraero (do governo federal). Essa não quer um aeroporto de porte em Ribeirão Preto porque ele dá dinheiro e é do Daesp.
Rosana - Que tipo de leitura o sr. faz hoje de Ribeirão Preto?
Isac - Em termos de todos os critérios, de qualidade de vida, de arrecadação, minha leitura não é favorável.
Rosana - O que mais piorou?
Isac - O que não melhorou e deveria ter melhorado é o problema das enchentes. Não se resolveu nada. Há também o problema do aeroporto, hoje empacado e cada vez pior porque os vôos estão sendo reduzidos. O trânsito de Ribeirão é um caos e entram por mês mais de mil carros novos. Mas é função do governo é trabalhar para se adaptar a isso.
Rosana - O que o sr. sugere, no caso do trânsito?
Isac - O metrô de superfície seria muito interessante. Há saídas para o trânsito. Elas são caras, mas dá para fazer. Não dá para ficar só calçando rua.
Rosana - Para fechar a entrevista, o que lhe vem à boca?
Isac - Lembro que fui um mineirinho que chegou com 14 anos de idade e nunca esperava ser tratado tão bem por Ribeirão. Acho que aqui fiz uma vida muito rica, de muito trabalho, e gosto muito dessa cidade. Todo dia agradeço por morar aqui. E agradecimento se faz com ajuda ao desenvolvimento da cidade. Por isso, me envolvo com política, com bioética, com dar aulas e ensinar.