Marcelo Canellas
Sabado, 7 de Junho 2008 - 15h16 O hálito mormacento do Mar do Caribe é o único alívio possível. Faz 35 graus à sombra. E é justamente a ela que procuro, esgueirando-me por debaixo das varandinhas de madeira dos imponentes sobrados coloniais que enfeitam estas ruas apertadas. Cartagena de Índias é um impecavelmente preservado conjunto arquitetônico, cercado por sólidas muralhas e castelos que defenderam esta cidade dos corsários, piratas e exércitos inimigos nos séculos 17 e 18. Levas de saqueadores aqui aportavam para tentar pilhar os carregamentos de prata extraída das minas do Vice-reino do Peru pela coroa espanhola.
Era da baía de Cartagena que os galeões partiam para a Espanha, abarrotados do rico metal que empanturrava os cofres de El Rey em Madri. O povoado fundado por Dom Pedro de Heredia, em 1533, é hoje uma metrópole de um milhão de habitantes, e o principal destino turístico da Colômbia. O centro histórico, repleto de conventos e monastérios suntuosos construídos a partir de 1610, quando o império defensor da fé católica instalou aqui o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, é, desde 1984, considerado pela Unesco patrimônio cultural da humanidade.
Paro diante do convento de Santa Clara, hoje um luxuosíssimo hotel cinco estrelas, e lembro da história do jovem jornalista do El Universal designado, em 1949, para cobrir a remoção das criptas funerárias do convento recém-vendido pela Igreja a uma rede hoteleira. O repórter Gabriel García Márquez, então com vinte anos, ficou espantado ao encontrar, num dos caixões, uma ossada cujo crânio mantinha uma cabeleira de mais de vinte metros de comprimento. A reportagem foi publicada no dia seguinte, mas a imagem daqueles longos cabelos ficaria zanzando na memória de García Márquez por mais de quarenta anos. Em 1994 ele lança Do Amor e Outros Demônios, romance sobre a vida da menina Sierva Maria Todos los Angeles. Quase posso vê-la arrastando as imensas melenas pelos corredores do convento.
Aliás, tudo aqui remete à literatura mágica do autor colombiano mais famoso do mundo: o calor abafado, o povo mestiço, o caos do comércio de rua que vende desde pias de banheiro até o caballito de papaya, um doce tradicional feito de fios caramelados de mamão. Se eu fechar os olhos um instante, para abri-los em seguida, posso achar que estou em Salvador ou em São Luís do Maranhão. Há algo de muito familiar aqui em Cartagena. Nunca entendi porque nós, brasileiros, damos as costas para um continente que tem tanto a ver conosco.
*Marcelo Canellas é jornalista e repórter especial da Rede Globo