Especial
Sabado, 7 de Junho 2008 - 15h38
SIMEI AMARRA OS SAPATOS DE CATARINA Ana Paula supervisiona os “procedimentos” corretos
A ansiedade te deixaria doidinha, sem saber o que fazer primeiro, explicou a recrutadora. Soltei um “tá” com olhos baixos. “Mas é devido ao seu perfil intelectualizado, você serviria mais para estimular a criança”, ela tentou levantar meu moral.
Fui, portanto, para uma casa com uma única criança, de um ano e oito meses. Exatamente na fase em que toda boa brincadeira é necessária para estabelecer as sinapses, aquelas reações entre neurônios que realmente importam para que o futuro cidadão possa usar qualquer inteligência que tenha recebido de herança genética.
No local, tinha empregada e uma babá de verdade - ninguém deixaria seu bebê com uma inexperiente. “Ela é nosso tesouro”, confessou a empresária Simone Perticarari Dib, mãe de Catarina, a bebê com quem eu faria as vezes de babá.
Igualzinha a uma dessas bonecas de olhos expressivos, Catarina estava no pique. Levou todos os brinquedos para o meio da casa, inclusive uma sacola com centenas de bolinhas coloridas que, sem pestanejar, esparramou alegremente pelos dois ambientes da sala. Enquanto brincávamos, ela ria, e eu me sentia feliz, porque minha maior preocupação era de que a criança me aceitasse.
“Ela trouxe todos os brinquedos aqui para se mostrar para você. Já era para ela estar dormindo, mas está agitada porque quer brincar com você”, comentou Ana Paula Sampaio, 23, a babá de fato. Se ela disse isso, eu estava tão contente como ao ouvir “Georgia on my mind”, com Ella Fitzgerald.
Em pouco tempo, porém, um mau sinal. A menina, que há uma semana havia aprendido a usar o penico, graças à boa atuação de Ana, começou a molhar o chão. A babá de verdade ficou surpresa e, eu, com receio. “Será que minha presença desencadeou uma desordem?”, a ansiedade insistia em atormentar.
Cansada da folia, Catarina adormeceu, e me aquietei. Fui ajudar Ana a cumprir a outra parte da missão de uma babá: cuidar de tudo que se refere à criança, como arrumar a bagunça dos brinquedos e lavar a roupa da bebê. “Ah, essas peças são sempre muito fofas”, tentei buscar o “lado bom” da coisa.
A despeito do esmalte reluzente na unha, de uma cor nova no mercado, meti a mão na bacia com sabão, esfregando uma meia de Catarina. A pequena deve se esbaldar em locais onde há terra, imaginei.
“Esfrega assim, o tecido contra o próprio tecido, e não contra a sua mão”, me ensinou Ana. Aprendi a tirar um encardido sem deixar a roupa submersa numa mistura explosiva de sabão e outras quinquilharias.
Estava no lucro até que o fotógrafo chegou e a menina acordou para a sessão de fotos (toda matéria tem que ter uma foto, entende?). Bastou ver o Pimenta (ele assina as fotos) com uma máquina apontada para ela, que um longo berreiro tomou conta da casa. “O que eu fiz de errado?”, minha ansiedade me culpou. Eis que Ana, mostrando por que é, de fato, babá, tomou as rédeas e a pequena voltou a sorrir. Fizemos as fotos, aliviados.
Fui embora com a sensação de quem é obcecado por jóias, como a Holly Golightly, de Bonequinha de Luxo, e passou a tarde na Tiffany. Mas a jóia cara não era minha, e sim de Ana Paula, a babá de verdade.
A babá é extensão da família, o braço da mãe
A babá precisa de fato ser instruída porque é ele que passa a maior parte do tempo com a criança. Mas aborte a idéia de que babá é uma “mãe terceirizada”. “Ela é uma extensão da família, o braço de uma mãe”, explica Simone, mãe de Catarina.
E por mais que aprenda o conceitual em um curso, é com a família que ela tem de definir a aplicação desse conhecimento. “Às vezes a mãe pode preferir um procedimento diferente em alguma situação”, indica Ana Paula. Papinhas, por exemplo, devem seguir o menu indicado pela dona da casa e o médico pediatra.
Além do treinamento, babá tem que ter energia para correr atrás da criança, e se identificar com a profissão. “Ninguém deve trabalhar com o que não gosta”, alerta Ana que, admite, sempre quis ser babá.