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Sabado, 7 de Junho 2008 - 15h43

Transplante é ‘oportunidade de vida’

Nicola Tornatore
WEBER SIAN Transplante é ‘oportunidade de vida’ VIDA NOVA Mariângela Rodrigues Coelho diz que teve sorte por ficar apenas cinco meses na fila de espera por um transplante de fígado

Meia-noite do dia 30 de setembro do ano passado. Toca o telefone na casa de Mariângela Rodrigues Coelho, 55 anos. O filho de 24 anos atende, a enfermeira-chefe do setor de transplantes de fígado do HC pede para falar com Mariângela:
“Seu fígado está chegando! Vamos fazer? Você tem de estar aqui em uma hora”, avisa.
“Sou meio poliana, nunca penso que as coisas vão dar errado, a gente aqui em casa nunca pensou que o transplante pudesse dar errado. Nosso único medo era simplesmente não aparecer um fígado a tempo”, revela Mariângela, coordenadora pedagógica de uma escola com mais de mil alunos.

Excelência
Exemplo do grau de excelência alcançado pelo serviço de transplantes de fígado do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, a história de Mariângela começa em 2001, quando teve uma hemorragia interna.
“Os médicos descobriram que eu tinha hepatite C. É uma doença ardilosa, que não dá sinal nenhum. Muito provavelmente fui contaminada pelo vírus em 1970, quando fiz uma cirurgia em São Paulo e recebi transfusão de sangue”, conta.
Por três décadas, o vírus agiu de forma silenciosa.
“Quando descobrimos, o fígado já estava cirrótico. Por seis anos, fiz acompanhamento das funções hepáticas por meio de exames de sangue. Até que em janeiro do ano passado os médicos descobriram dois pontos cancerígenos no fígado, provocados pela cirrose. No dia 23 de abril, fiz minha primeira consulta no HC e oficialmente ingressei na fila de espera por um transplante”, explica.

Sorte
Para Mariângela, a espera relativamente curta – cinco meses – foi conseqüência de vários fatores.
“Sorte, Deus e meu tipo sangüíneo, O positivo, o chamado receptor universal”, conta.
A classificação na lista de espera oscila de acordo com as condições do paciente. “Fiquei em 12° lugar, depois em 24°, cheguei a 2°, aí saí da fila por causa de uma infecção urinária e, quando voltei, me chamaram”, lembra.
Caso não tivesse aparecido um fígado compatível, Mariângela acredita que teria no máximo mais um ano de vida.
“Era ou o transplante ou o transplante. Não tinha outra alternativa”, explica.

Cansaço
Em agosto do ano, passado, pouco mais de um mês antes do transplante, as condições físicas se deterioraram a ponto de Mariângela afastar-se do serviço.
“Entrei em licença. Estava com o abdômen muito grande, tinha tonturas e sentia muito cansaço”, recorda.
No dia 1° de outubro, quando se submeteu ao transplante, Mariângela entrou no HC com 98 quilos.
Saiu 24 dias depois, pesando 72 quilos. Toma apenas um remédio, contra rejeição, e retomou seu ritmo normal de trabalho.
Em fevereiro, reassumiu o posto de coordenadora pedagógica da Unidade Portugal do COC. Na semana passada, viajou com mais de mil alunos para um parque de diversões.
“Decidi tornar público meu caso para incentivar as famílias a doar órgãos. De nada adianta o avanço da Medicina, os recursos fantásticos de que o Hospital das Clínicas dispõe, se as famílias não doarem órgãos”, comenta.

Mensagem positiva
Atualmente, Mariângela realiza visitas a pacientes que aguardam um transplante.
Ela diz que a “estadia” na lista de espera, ainda que curta, fez com que ela conhecesse muita gente que também aguarda por um órgão.
“Os pacientes se encontram no HC, as relações de amizade vão surgindo, acabamos virando uma grande família”, conta.
Agora, resolvido seu dilema, Mariângela ajuda “ex-colegas” da lista de espera.
“Vou dar meu depoimento, levar uma mensagem positiva, mostrar que, se deu certo no meu caso, pode dar também nos de outras pessoas que enfrentam o mesmo problema”, resume.

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