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Sabado, 7 de Junho 2008 - 15h45

74 anos atrás do balcão da antiga loja de ferragens

Sidnei Quartier
MATHEUS URENHA 74 anos atrás do balcão da antiga loja de ferragens ATRÁS DO BALCÃO DAS CASAS CHIARIELLO HÁ 74 ANOS Flavinho, aos 87 anos de idade: uma história

Ele brincou nos alicerces onde se ergueu o Theatro Pedro II. Adorava ver a manobra dos trens na estação da Mogiana. Costumava espiar o coronel Francisco Schmidt, camisa, calça e paletó de linho branco, caminhando pelas ruas do Centro. Nos fins de tarde, jogou bola nos paralelepípedos da Saldanha Marinho com a São Sebastião. Acompanhou o nervosismo e a agonia dos adultos na quebra da bolsa de 29, que deixou os fazendeiros do café em situação delicada. E freqüentou os cafés Pinho e Triângulo.
Testemunhou o castigo do fogo e da água. Da casa onde nasceu, um sobrado no número 90 da Saldanha Marinho, acompanhou, assustado, o incêndio do Mercado Municipal. Em novembro de 1927, choveu tanto, mas tanto, que as águas do ribeirão Preto quase chegaram na Saldanha Marinho.
Nos balcões das Casas Chiariello, onde trabalha há 74 anos, atendeu clientes como o cafeicultor Thomaz Alberto Whately, que comprava caixas de enxada da marca Duas Caras. Os ex-prefeitos Fábio Barreto, Camilo de Matos e Costábile Romano também foram atendidos por ele.
Encantou-se com o primeiro automóvel - Ford 29 - que viu rodar. Já moço, tomou cachaça e cerveja com Sílvio Caldas, o seresteiro do Brasil, depois de uma apresentação na Boate Azul, na rua Américo Brasiliense. Mais tarde, sentiu-se abobalhado diante do balanço e da beleza de Elza Soares.

74 anos no emprego
A pessoa em questão é Flávio Ciccone, 87 anos - nascido no dia 12 de novembro de 1920. Até agora, Flavinho - como é chamado - teve apenas dois empregos. Dos 13 aos 14 anos, trabalhou nas lojas de sapatos Viesti, com Antônio, Miguel e Américo Viesti. Aos 14, foi levado para as Casas Chiariello, onde está até hoje: 74 sob o mesmo teto.
Seu primeiro cargo foi o de entregador: num carrinho de madeira, destes de duas rodas, levava peças (enxada, picareta, enxadão, pá, martelo, serrote) em domicílios.
“Naqueles tempos, em 34/35, só existiam a Vila Tibério e a Vila Virgínia, além do pequeno centro, que se concentrava na Baixada. Do Barracão para cima, era o começo do Ipiranga e, para baixo, estava começando a surgir os Campos Elíseos”, lembra.
No final da década de 30, os principais vizinhos das Casas Chiariello eram o Banco Construtor, bem em frente, na esquina da Saldanha Marinho com São Sebastião; a farmácia Poli, no outro lado da esquina; e as Casas Bardaro.

Filho do barbeiro
A vida de Flavinho oscilou entre a agitação e a rotina. Seu pai foi um famoso barbeiro - Gabriel Ciccone - que tinha salão na General Osório. “Cortava o cabelo e fazia barbas dos famosos, de políticos, bancários e fazendeiros”, conta.
Flavinho foi o quinto dos sete filhos da união de Gabriel com Eliseta Chiariello, irmã de Victor Antônio Chiariello, o fundador das Casas Chiariello, nossa mais antiga e tradicional loja de ferragens. Dos sete irmãos, apenas ele e uma irmã estão vivos.
Aposentado desde 77, Flavinho optou por continuar no emprego. Tinha motivos para isso. Além de gozar de boa saúde, onze anos depois, em 1988, perderia a esposa, Nair de Souza Ciccone.
“Vou continuar comparecendo ao trabalho enquanto puder”, diz.
Acostumou-se a morar sozinho. A filha única, Flávia Helena, formada enfermeira na USP-RP, casada, mora em São Paulo.

Divide refrigerantes
Nos dois últimos anos, por conselhos médicos, a empregada que trabalha com ele, desde 78, passou a dormir na casa. É que Flavinho, com labirintite, andou levando uns tombos durante à noite.
Teve derrame no olho direito, operado da catarata. Por tudo isso, passou a ser vigiado de perto. O médico também lhe receitou uma bengala.
“Isso é sinal de velhice”, brinca.
Não falta ao trabalho, embora não seja obrigado a comparecer diariamente. À tarde, costuma sair com os mais jovens, entregando mercadorias pela cidade. Todo santo dia gasta R$ 5,00 em refrigerantes com a rapaziada com quem divide o balcão.
“Virou tradição”.

A boa cerveja
Na mocidade, nunca foi de fumar. No máximo dois ou três cigarros, no começo da noite.
Em compensação, cerveja e uma cachacinha eram com ele mesmo. E dá-lhe conversa sobre futebol, sempre “brigando” pelo Botafogo e o Palmeiras.
“Bebia até sete e meia, oito horas. Depois, ia para casa. Cada dia, um pouco”, ironiza.
Até agora, morou em três endereços. Da Saldanha Marinho da infância foi para a Travessa Moreira, entre a Prudente de Morais e a praça 7 de Setembro. Hoje, está na rua Piracicaba, no Jardim Paulista.
“Tudo é Ribeirão, felizmente”.


A Chiariello, desde 1927, no mesmo lugar
Nosso primeiro encontro foi no meio da tarde de segunda-feira (2). A nos separar, o largo balcão das Casas Chiariello. Meia hora depois de uma conversa agradável, já me sentia incomodado.
O desconforto começava pelos pés e crescia com o ruído irritante dos motores de ônibus e de carros de propaganda. E ele firme, animado, gesticulando, agüentando as brincadeiras dos companheiros de atendimento. Esforçava-se para lembrar de quase tudo. Naquele momento, fiquei com a impressão de que Flavinho nasceu em pé, há 88 anos.
O peso e o tamanho - baixo e magro, beirando sempre os 68 quilos e pouco mais de 1m60 - também facilitam os deslocamentos de um balconista.
A Chiariello foi aberta em 1927, praticamente no mesmo local onde está hoje. Mas na Associação Comercial e Industrial, o registro oficial de fundação marca o dia 18 outubro de 1933. A empresa foi filiada na ACI no ano seguinte.
Flavinho diz que no começo a loja ficava no meio do quarteirão, época em que a Baixada mandava no comércio. Depois, subiu para a esquina da Saldanha com a São Sebastião. Mas o prédio é o mesmo. A parte de baixo, agora, é usada como depósito de mercadorias.
A Chiariello hoje tem à venda perto de 14 mil itens. Só no balcão, são cinco vendedores, alguns com mais de 30 anos de casa.

Alicate de R$ 279
Entre os quase 14 mil itens das Casas Chiariello, pode ser encontrado um alicate importado - uma das peças mais caras da loja - ao preço de R$ 279,00. Um facão Jacaré custa R$ 129,00. Um carrinho de cortar grama sai por R$ 4.500,00. Um serrote pode custar R$ 116,00. Uma chave inglesa sai por R$ 79,00.

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