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Imóveis

Sabado, 7 de Junho 2008 - 18h12

Construções valem mais que dinheiro


Oscar Niemeyer dizia que “a arquitetura brasileira é invenção. Deve-se contrapor ao poder imobiliário. “Em um país capitalista – prossegue – a arquitetura social não existe”.
Na síntese moderna, o poder imobiliário – fração do poder econômico – na verdade deve se conciliar com a arquitetura, a arte que é considerada a oratória do poder. Quem quiser saber com quem estava, por exemplo, o poder – econômico e/ou político – em Ribeirão Preto no início do século vinte, precisa saber quais os grupos que tinham as melhores construções.
O prédio da catedral de São Sebastião, o Palácio Rio Branco, o quarteirão paulista – este construído na década de vinte do mesmo século – as residências onde moravam os barões do café, são exemplos que mostram, de pronto, quem mandava. Por conseguinte, os demais obedeciam.

Nos epitáfios
Nos cemitérios também nós podemos ver – ainda mais claramente, mais nitidamente do que nas construções urbanas – quem mandava. Quem tinha o poder. Por trás dos epitáfios que ainda subsistem está o poder. E o dinheiro que o produzia. Atualmente o poder gera o dinheiro. É que política passou a ser a arte de transformar dinheiro em voto, até se chegar ao poder. E voto em dinheiro, depois de se ter chegado ao poder.
Também hoje em dia o dinheiro está em determinadas mãos. Como estava no início do século 20. Gertrude Stein afirma: “o dinheiro continua por aí mesmo. Só que mudou de bolsos”. Hoje, a cana-de-acúçar ocupa o espaço que há cem anos – ou pouco menos – estava nas mãos dos produtores de café. As construções mostram mais uma vez com quem está o poder. Mas, nos cemitérios, a finesse do passado, o bom gosto artístico notado nos epitáfios e nos túmulos, desapareceram. Nos dias de hoje, há opulência nos mausoléus, mas sem arte.

Bom gosto
Espera-se que a arquitetura brasileira venha – mesmo nos lançamentos imobiliários para as classes médias ou mais pobres – suprir a falta de recursos por mais bom gosto. Criar-se o que Niemeyer chamou de arquitetura social. Ela pode ter a função do design em uma máquina: dar um toque de beleza numa mecânica que, quase sempre, não é bonita.
A beleza é sempre mais forte do que o dinheiro. Ela pode aparecer mais. Ela pode individualizar o que era socializado.



VICENTE GOLFETO

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