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Especial

Sabado, 7 de Junho 2008 - 20h4

O fumante, o ex-fumante e o médico

Sidnei Quartier
MATHEUS URENHA O fumante, o ex-fumante e o médico DR. GALATI Tática terrorista infalível contra o vício dos fumantes

Continental, Beverly, Lincoln, Hollywood, Carlton e Hilton foram os nomes mais repetidos, durante 50 anos, na vida de Armando Pisani. São as marcas de cigarros que ele consumiu por meio século.
O começo foi quando tinha 18 para 19 anos e lecionava em Paulicéia, região de Presidente Prudente. O rio Paraná corta o município e Armando costumava pescar. Para espantar os pernilongos, fumava.
“Depois disso, fiquei 50 longos anos espantando pernilongos imaginários”, brinca.
O último cigarro foi quando chegou aos 69 anos - hoje tem 75 e, felizmente, está bem de saúde, com 16 quilos a mais.
Antes de visitar o médico, “engoliu” o derradeiro Hilton longo de sua carreira de fumante. O médico lhe disse, seco, que se não parasse de fumar, melhor, seria procurar outro profissional. A rispidez do médico e uma frase de seu primeiro neto, João Victor, de que cigarro não é coisa de Deus, fizeram Armando tomar a mais difícil decisão de sua vida.
“Ninguém acreditava que eu conseguiria, mas parei”, conta.
Armando chegou a fumar quatro maços dia (80 cigarros) e tomava de 15 a 20 xícaras de café. No auge do vício, já como representante comercial, dormia às 22 horas, levantava-se às duas da manhã, fazia café, fumava de cinco a seis cigarros e voltava para cama.
Nos seus deslocamentos, sempre usou ônibus. Um dia, em São José do Rio Preto, tomou um expresso para Ribeirão. Assim que chegou na estrada, soube que não podia fumar. Não teve dúvidas: desceu em Catanduva, a cidade mais próxima, e pegou um carro de linha. Feliz, fumou o resto da viagem.
Depois que o governador Laudo Natel proibiu fumar nos ônibus, no começo da década de 70, Armando torcia para furar um pneu ou quebrar o motor, só para acender um cigarro.
“Quando isso acontecia, o único cara feliz entre os passageiros, era eu”, ri.
Lembra que ao consumir carnes (porco, frango ou boi) não distinguia o sabor. “Sentia gosto de palha”. Uma de suas maiores alegrias foi a recuperação do paladar. Mas confessa que não foi nada fácil. Nos primeiros cinco meses, caiu em a depressão. Não conversava, nem com familiares e saía pouco de casa. Foi o período da desintoxicação.
Hoje, não discrimina os fumantes e nem foge da fumaça. Só pede para a pessoa, se possível, deixar o vício.


Galati, o terror dos fumantes teimosos
O pneumologista José Galati Junior, formado há 54 anos, na Faculdade Nacional do Rio de Janeiro, é considerado um dos “terrores” dos fumantes em Ribeirão Preto.
Logo no primeiro contato com o paciente, o médico costuma ser duro e incisivo. Seu conselho é o seguinte: “se você não quiser sofrer, pare de fumar agora. Se continuar, pode dar sorte, contrair um câncer e morrer em pouco tempo. Mas se o enfisema te pegar, você não terá como respirar, nem com a ajuda de oxigênio. E este é o maior sofrimento que pode acometer o ser humano. Buscar o ar para respirar e não achá-lo”.
O enfisema, diz o médico, é uma doença resultante da destruição dos alvéolos pulmonares. São minúsculas estruturas esponjosas e elásticas, através dos quais ocorre a oxigenação do sangue.
O pnemologista também usa um recurso antigo para assustar o fumante. Quando alguém, perto dele, tosse e cospe o catarro, ele diz “parabéns, você acaba de cuspir um pedacinho do seu pulmão”.

Eutanásia
Galati Júnior, que hoje atende clientes antigos e dá assistência aos enfermos no Abrigo dos Tuberculosos, diz uma vez pensou em praticar a eutanásia num fumante.
“Era um paciente internado que não conseguia respirar. A filha dele me implorando para fazer alguma coisa. Em casa, comentei com minha mulher que se fosse permitido, convocaria uma junta médica para isso. Felizmente, ele morreu dois dias depois”. Com histórias assim, Galati já fez muitos largarem o cigarro.


Proni já fez de tudo. Até usou camisa sem bolso
Ele já recorreu a todo tipo de ajuda. Chupou pastilhas, usou colante com nicotina, fez simpatia, promessas e usou até camisa sem bolso. Só faltou furar a orelha. E nada. Aos 69 anos, o advogado imobiliário Lourival Proni continua fumando um maço de Hollywood/dia, sem dispensar a cervejinha nos finais de semana.
Para complicar a situação, Proni convive, aos sábados, com um grupo de uns vinte amigos. Ele é o único fumante. No baralho, quando acende o cigarro, sempre arranca um comentário crítico. No churrasco, quando fuma, recebe olhares de desaprovação.
Mesmo com diabetes e pressão alta, Proni ainda joga duas partidas de quadra, com duração de vinte minutos cada. E tem um bom apetite: pesa 86 quilos. Acima de tudo, é um forte.
“Se o Proni não fumasse, seria um touro”, diz um amigo do grupo. Outro diz que, em jogo do Botafogo, ele fuma mais de dois maços.
Proni começou a fumar aos 24 anos, depois que conheceu sua mulher, a professora Rose Marie Weishaupt, com quem tem dois filhos e netos.
Rose fumava Charm, dos longos, que realçava sua origem alemã, mas não bebia. Proni tomava cerveja – que atestava sua origem italiana - mas não fumava. Um dia, para agradá-la, apareceu com um maço de cigarros e isqueiro. Nos mais de 40 anos de união, Rose já parou de fumar duas vezes, por longos períodos. Proni, não.
Confessa que são tantas as restrições impostas ao fumante, que às vezes sente-se marginalizado. Mas reconhece suas virtudes. Respeita as proibições e as boas maneiras. “Não fumo em carro de amigo, em recinto fechado ou em lugar que não tenha cinzeiro”.
Diz que pode ficar duas ou mais horas sem fumar mas não sem sacrifício. Na casa do filho Marcelo, professor da Unicamp, em Campinas, Proni não pode fumar nem no jardim.

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