Especial
Sabado, 7 de Junho 2008 - 20h6
SIMEI MOSTRA BONECAS PARA CATARINA No colo da babá de verdade, ela pára de chorar e sorri
Respondi como se fosse convite para um show da Lauryn Hill ou entrevista com Vargas Llosa. “Claro que topo”, disse em bom som, esticando as vogais da primeira palavra.
A editora perguntava se eu passaria um dia de babá, para depois relatar a experiência em matéria. A maioria das minhas amigas, inclusive de profissão, ficaria com as duas primeiras opções: a voz potente de miss Hill ou o papo-cabeça do escritor.
“Está falando com a pessoa certa”, pensei, gabando-me do histórico de bons relacionamentos com os guris da família e os dos amigos. “Mas gostar de criança não tem nada a ver com ser babá”, piscava uma luz amarela na consciência. Pronto. Acabava de ver que, por empolgação, teria entrado numa roubada.
Nenhuma outra matéria provocara tamanha apreensão. Nem com traficante, escritor ícone ou cantor famoso. Nunca ninguém sabe o que esperar de uma criança, é um dos chavões mais verdadeiros desse mundo pop, e não me saía da mente.
“Você precisa passar por um curso”, sentenciou a psicopedagoga Karine Devós Castro, proprietária da Fraterna, empresa que treina e recruta babás.
O tempo era curto, tudo teria de ser feito na mesma semana - e essa era uma daquelas em que se pensa em pedir arrego, de tanto trabalho.
“Não só o curso, mas quero me submeter a um teste de seleção. Você pode me avaliar?”, rebati, convicta de uma coragem que custava a dar as caras.
Levantei três horas mais cedo que o habitual e cheguei ao local como combinado. Preenchi questionário e passei por entrevista. Esse é apenas o primeiro passo para a seleção, que inclui uma investigação geral sobre a vida das aspirantes, para ver se a moça ou algum aparentado não tem um enrosco com a Justiça.
Há quem desista nessa etapa, conta Karine, com uns olhões azuis sobre mim. “A gente cerca de todos os lados, encurrala mesmo”, dizia. “Só na última etapa a candidata tem algum contato com a família”.
Ela pulou essa parte, no meu caso, já que a história era outra. Nem de longe ela acreditaria que eu deixaria minha profissão para ser babá.
Perguntou muito sobre meu estilo de vida, as preferências de lazer, plano de carreira, minha rotina e até sobre a qualidade do sono (de noites mal dormidas, no caso de jornalistas).
Analisou ainda um desenho de uma árvore monstruosa que rabisquei, em 30 segundos. Baixou um Iberê Camargo e eu quis redesenhar. Piorou.
“Olha, se eu te colocasse à disposição das famílias, te encaminharia apenas para casas onde há uma única criança, e onde você não tivesse outro afazer senão brincar com o pequeno”, mandou, de cara, o resultado do meu primeiro teste de aptidão.
Acabou de vez com qualquer esperança que eu tivesse de, um dia, soltar a Julie Andrews de Noviça Rebelde que existe em mim. Apesar do meu estilo de vida - sempre corrido, sem certeza da hora de dormir e com muito gosto por maquiagem, moda e cultura-, eu juro que já tinha pensado em ter uma prole de mais de cinco. Biológicos e adotados. “Você não conseguiria lidar com pelo menos três, principalmente uma ‘escadinha’, com idades próximas”, diz implacável.
O que aprendi sobre babás me surpreendeu
Para ser babá, como senti na “pele”, não basta só saber brincar com a criança. Tem que cuidar, zelar. Essa é a principal função, ensina Karine, a recrutadora, que também dá aulas para candidatas a babás.
O curso tem até psicólogo, dentista, instrutor de primeiros socorros e de etiqueta. Babá profissional sabe desde lidar com talheres quanto a se virar em festas granfinas.
“Um advogado também aborda o ECA (Estatudo da criança e do Adolescente) para saber, por exemplo, que violência emocional não pode”, diz Karine.
Os professores também avaliam se a pessoa serve ou não para a função. Eu passei por um intensivão de meio período antes de seguir para a casa de Catarina. Mas fiquei em dúvida sobre os resultados.