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Especial

Sabado, 7 de Junho 2008 - 20h8

É preciso coragem para viver o amor

Simei Morais

Sim, o amor transforma. Não se preocupe, quem afirma isso não é dado a clichês. O psicanalista Contardo Calligaris, 60, dá uma boa explicação que faz até os mais individualistas acreditarem. “Não conheço nada mais que gere transformação”, diz o italiano radicado no Brasil (antes, morou na Suíça, na França e nos Estados Unidos).
O amor, e aí não é só o que ocorre entre duas pessoas apaixonadas, tem esse poder. É o que faz um aluno a se interessar por uma matéria por causa do professor, exemplifica. Tem ainda a relação de amor entre pais e filhos, que também gera um bocado de mudanças ao longo da vida. “Mas essa é uma história imposta, que ninguém escolhe. As outras são todos encontros”, ressalta Calligaris.
E para os encontros, conte com a sorte. Ninguém sabe o que vai achar pelo caminho. “É uma dimensão de encontros um pouco fortuita”, aponta.
Se essa parte cabe à sorte que não se sabe de onde vem, a outra, pelo menos, é de responsabilidade de quem ama, aponta. “O mais importante nos encontros é ter coragem”, declara Calligaris.
Sua primeira ficção, O Conto do Amor, que acaba de ser lançada, deixa explícito como o personagem principal, Carlo Antonini, se lançou numa busca que culminou no encontro de um amor - transformador, diga-se. “No começo do livro, ele é incapaz de mostrar sentimentos, mas no fim, chega a fazer declarações”, compara.
Uma maioria que se queixa de não ter um amor, diz o psicanalista, quando o encontra, se fecha. “Se alguém chega na locadora e pergunta se pode ajudar a escolher um filme, logo responde ‘mas não te conheço’”, brinca.
A falta de coragem para buscar o amor está ligada, diz Calligaris, ao estilo de vida de hoje. Por isso, lembra, há cada vez mais solteiros. “Estamos muito aprisionados à vida que construímos, à nossa pequena vida”, aponta.


Renascença no enigma de Sodoma
A história de amor entre o psicoterapeuta Carlo Antonini e a historiadora Nicoletta é recheada de conteúdo renascentista. Os dois perfazem o período histórico em endereços da Itália, atrás de pegadas do pai de Antonini.
O psicoterapeuta italiano que vive em Nova York decide voltar à terra natal em busca de informações sobre uma história que o pai lhe contara, há 12 anos, antes de morrer. O velho teria sido, em outra vida, um assistente de Sodoma, pintor maneirista do século 16.
Semelhanças com a vida do autor? “O primeiro capítulo, com a história do pai dele (Antonini) é toda autobiográfica”, conta Calligaris.
Giuseppe Calligaris, pai de Contardo, morreu em 1995, deixando a história cabulosa como herança para o filho. “Não perguntei nada para ele naquela noite (da revelação), fiquei atordoado. Ele não era espírita, era agnóstico, para não dizer ateu”, recorda.
Diz que a jornada em busca de pistas sobre a história do pai foi uma maneira de continuar o diálogo com o progenitor. “Quando os pais morrem, ficamos com a impressão de não ter aproveitado o tempo em que estavam disponíveis. Foi um jeito de conhecê-lo melhor”, diz.

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