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Especial

Sabado, 7 de Junho 2008 - 20h10

Amor descartável é maior problema

Simei Morais

A vida amorosa vazia é a campeã de problemas de pacientes de 16 a 40 anos, levados ao consultório da psicóloga Lineide Bitencourt. Não é diferente em outros divãs, comenta.
“Na faixa dos 30 aos 40 anos, essa questão ganha mais importância. Há algum tempo, as pessoas já tinham família constituída com essa idade”, diz.
Ela observa que os valores de mercado se projetaram sobre as relações humanas. O individualismo e a competitividade são as características mais freqüentes das gerações atuais, aponta.
“Quando alguém depara com o compromisso, freia. A maioria só quer ganhar, e não quer o lado negativo do amor, que inclui algum sofrimento”, explica Lineide.
Também porque a maturidade acontece mais tardiamente. O período em que antes se saía de casa para casar, agora é voltado para agregar pontos na carreira.
O que fica é que, apesar do número maior de experiências, a completude não chega, queixam-se os pacientes. É como em Sex and the City, o seriado que chegou ao cinema. As quatro amigas querem um amor.
“Estão sempre em busca, mas não ficam completas, aí partem para novas aventuras sob a mesma fórmula. Somos imediatistas e não queremos a solidão; quem se desespera se entrega de novo à corrente”, comenta a psicóloga.
Quem abdica dessa fórmula pode sofrer, quando demora para encontrar quem pense igual. “A massa vai no sentido inverso, porque não foi educada a refletir”, diz.
Persistir e buscar o diálogo é a chave para reconhecer quem é semelhante, afirma. Esqueça balada com música alta e bebida como possíveis endereços para esse encontro. Aposte em atividades que podem ser feitas em conjunto, sobre as relações humanas, aconselha Lineide. “É nesses grupos que se descobre alguém com o mesmo anseio de compromisso”.


Nicoletta seria o amor ideal
Nem tudo que está em O Conto do Amor, de Contardo Calligaris, é real. Nicoletta, a historiadora que que arrebata o coração de Antonini não existiu. “Para encontrá-la, escrevi o livro”, ri o psicanalista.
A relação entre os dois personagens sintetiza o que o autor considera ideal. “Ela tem a capacidade de ficar em silêncio enquanto ele lê todas as cartas”, comenta. E no final da trama os dois caminham juntos para o desfecho do enigma deixado pelo pai de Antonini.
Nicoletta tem como atributo a discrição e o companheirismo. “Tenho isso para mim, que não é simplesmente olhar um para o outro, mas fazer coisas juntos. Ela tem respeito, a capacidade de evitar sentimentalismos que são péssimos para uma relação”, argumenta.

Vale quanto pesa
Sobre a vida real, Calligaris afirma que o que vale, num relacionamento, não é o tempo que dura. Passar a vida toda junto não significa que a relação foi melhor que uma de seis ou 12 anos, diz.
“É triste como as pessoas têm um julgamento negativo sobre uma história simplesmente porque acabou. O fim pode ser triste, mas não quer dizer que foi um fracasso”, declara.

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