Vicente Golfeto
Terça-Feira, 10 de Junho 2008 - 21h9 A realidade precede a palavra. O que vou mencionar ocorreu há algumas décadas. Um amigo apresentou-me uma pessoa e sua namorada. Tudo bem. Os cumprimentos foram naturais, de praxe. Depois de algum tempo – coisa de duas semanas – vi que o casal estava morando numa casa próxima de onde eu também morava. Éramos vizinhos, portanto. Causou-me espanto um casal de namorados morando sob o mesmo teto. Eles estariam amigados. O que não alterava nada, mas eu estava – como sempre estou – preocupado com a palavra.
Depois, anotei: em mais amor mais ar. Enamorar. Enamorar, namorar, implica amor. Seria, então, fazer amor. O inusitado passou a ser regra. A mídia, mesmo, fala de namorada ou de namorado em vez de amante ou coisa parecida.
O casamento – formal ou informal – é a ata de fundação da família. Ele tem-se alterado, ao longo dos tempos, conforme a organização do homem sobre a Terra. Que passa de tribo para sociedade e, atualmente – numa espécie de transição – de sociedade para o individualismo. Nas tribos, a honra. Nas sociedades, os valores. No individualismo, os preços.
A família – instaurada sempre pelo casamento – segue se modificando. Nas tribos, o patriarcalismo. Nas sociedades, homem e mulher dividem o poder em condições de igualdade. E no individualismo, como fica o casamento que é uma sociedade? Como a sociedade mercantil, que tende a ser mais anônima, a sociedade conjugal tende a sumir, desaparecer, quando se encerrar a transição que atualmente estamos vivendo. É da sociedade para o individualismo.
Certa vez perguntaram a Simone de Beauvoir, que casamento era o dela com Sartre, se ela morava em Londres e ele em Paris? E ela respondeu: “por que precisamos morar na mesma cidade se temos o mundo como lar?”
Parabéns aos namorados, neste dia dos namorados. Muitos – nem todos – estão nos motéis desenhando o futuro do casamento. Que escreverá o futuro da família.