Júlio Chiavenato
Terça-Feira, 10 de Junho 2008 - 21h10 Sábado, deveria estar no Café Filosófico da Feira do Livro. Comuniquei que não vou. Nada contra a Feira, nada contra ninguém, nenhum juízo de valor. Só isso: cansei. Chega de “atividades culturais”, de elogios de ocasião de quem nunca leu meus livros, de palestras para universitários de chinelas havaianas e bermudão de “mano”. Chega de intelectuais de araque, chega de lantejoulas. Chega de eu mesmo na vitrina das ilusões.
Quando se está pela bola sete é bom fazer o que dá na telha. Quem é mal educado e grosso como eu, desde que não prejudique ou maltrate ninguém, não se avexa em descumprir a agenda. Aliás, nem tenho “agenda”.
Ao entrar na reta final da vida é preciso tomar tento. Algum dom Quixote, não sei se foi o Tolstoi, disse que a pátria do homem é a humanidade. Dostoiévski (que bem poderia ter dito o que estou atribuindo ao Tolstoi), fez o Raskolnikof beijar os pés da sofrida, patética, despossuída e infeliz Sônia, e dizer a frase que marcou gerações: ao beijar os teus pés beijo a humanidade. Alguém se lembra?
Aí veio o Nietzsche e bagunçou o coreto. Deve ter sido ele quem disse: a pátria do homem é a solidão. Juntando os russos ao doido alemão, percebo que se quisermos penetrar na pátria da humanidade o caminho é a solidão. Nada paradoxal: nesses tempos de autopromoção e “marketing” a intelectualidade faz parte do show da vida como figurante de uma farsa. Já não quer mudar nada, menos ainda beijar os pés das sônias.
Viva a Feira e o Zé Pereira, mas tô fora. Bom proveito para todos. Melhor proveito para quem, na solidão solidária da leitura, não se perde em badalações e penetra na pátria da humanidade, com os operários do livro, que desvendam o mundo, vasto mundo.