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Sabado, 14 de Junho 2008 - 19h22

O dia em que Ribeirão virou S. Paulo

Sidnei Quartier
F.L.PITON O dia em que Ribeirão virou S. Paulo RIBEIRÃO PRETO, 9 de junho de 2008 Caos no trânsito, muitos carros batidos: 18 veículos se envolvem em quatro acidentes na avenida Independência, no intervalo de uma hora: “ossos da segunda-feira”

A principais cidades do Interior estão morrendo de ‘inveja’. O trânsito de Ribeirão Preto fez história na segunda-feira passada (9) ao registrar o maior engavetamento da sua história. Em números de carros envolvidos, o nosso acidente só perde para os registrados na Grande São Paulo ou nas principais estradas paulistas, assim mesmo, nas imediações da capital.
Em quase uma hora e num trecho de 600 metros, na avenida Independência, 18 veículos se envolveram em quatro batidas seqüenciais.
Duas delas, com onze carros e uma moto. As outras duas, envolvendo seis carros. Felizmente, não houve ferido grave. Os personagens do primeiro engavetamento, às 8h06, que desencadeou os demais, tornaram-se camaradas. No fim, quando o Boletim de Ocorrência já tinha sido lavrado, se chamavam pelo nome.
Não houve troca de ofensas ou xingamentos. Apenas solidariedade, além do grande susto. Os estúdios de Hollywood não fariam melhor.
Entre os envolvidos, só a motociclista Kelly Cristina Rosa Noma, 24 anos, sofreu ferimentos preocupantes. Por isso, quando perceberam que seu nariz sangrava, correram para socorrê-la. Levada para o hospital, constatou-se uma fratura. Justamente Kelly, a única enfermeira do grupo de acidentados.

Engavetamento 1
8h06, avenida Independência, quase na esquina da Prudente de Morais, sentido Presidente Vargas, zona Sul.
O quintanista de Direito, Danilo Henrique Benzoni, ao volante de um Uno, não percebeu que o Kadett do pedreiro Sidnei Valentim, tinha acabado de frear. E bateu. O carro de Valentim, atingindo, acertou o Fiesta da frente, da professora Máira Marchi Fonseca, que já tinha batido na traseira de um Renault.
Na seqüência, o Santana de Francisco Jonas Ferreira Freitas acertou o Uno de Danilo, que foi arremessado em cima do Kadett de Valentim. A enfermeira Kelly Cristina, que conduzia a moto, tentou escapar do Santana mas não evitou a colisão. Arremessada, bateu o rosto no carro e machucou o nariz.

Engavetamento 2
Com o acidente nas imediações da Prudente de Morais, o trânsito na Independência tornou-se caótico. É que os motoristas, curiosos, passavam lentamente na área do engavetamento. PMs e marronzinhos da Transerp não conseguiam fazer o trânsito fluir. O congestionamento entupiu a avenida do balão da Treze de Maio até a Prudente Morais.
Resultado: dezessete minutos depois – às 8h23 – ocorreu outro engavetamento, com seis carros, desta vez sobre o viaduto José Sarney.
“Falta de atenção”, resmungou um policial militar. Mas, no segundo engavetamento, ninguém se machucou. Até os danos nos carros foram bem menores.

Engavetamento 3
Mesmo sem vítimas, a PM elaborava boletim de ocorrência para preservar o direito dos proprietários de carros com seguro.
O trânsito, é claro, sem a remoção dos veículos acidentados, continuou difícil.
Por isso, oito minutos depois - às 8h31 - aconteceu outro acidente, envolvendo três carros, entre o viaduto José Sarney e a rua Henrique Dumont. É claro que o engavetamento triplo foi motivado pelo trânsito lento.

Engavetamento 4
No sentido inverso da Independência, em direção à Meira Júnior, o trânsito fluía relativamente bem. Mas em frente aos locais onde haviam ocorridos os engavetamentos, os motoristas passavam lentamente. A curiosidade provocou o acidente com mais três carros, na altura da rua São Sebastião. Foi o último. Eram quase nove horas.
Mais Independência
A Cidade, durante a semana, destacaria outros dois acidentes graves, na mesma avenida Independência.
Na terça-feira, Matheus Henrique de Azevedo, 18 anos, acidentou-se no chamado Complexo Viário Dr. Leão, que liga a Independência à Meira Júnior. Trafegando de moto, Matheus derrapou, caiu, bateu no muro de contenção que divide as pistas e sofreu fratura exposta na perna esquerda.

No viaduto
A outra batida foi, novamente, sobre o viaduto José Sarney, na quarta-feira à tarde. O motociclista João Paulo Nogueira Martes, 24 anos, bateu na traseira de um carro, depois de um motorista ter reduzido a velocidade.

O coronel Muniz fala em açodamento e obras
O coronel Antonio Carlos Muniz, superintendente da Transerp, confessou sua preocupação com os engavetamentos de segunda-feira cedo e com a ocorrência de outros acidentes, ao longo da semana, na avenida Independência. Para ele, é o resultado da “correria da vida”. Mas aproveitou a oportunidade para condenar o açodamento dos motoristas. “Ninguém mais respeita a distância regulamentar de um veículo para o outro”, disse o coronel.
Mas se o motorista for levar ao pé da letra a lei da distância, deverá trafegar vinte metros atrás. Impossível de se cumprir. Tanto é, que as auto-escolas ensinam que, o ideal, é manter a distância em que se vê, por inteiro, o pneu do carro da frente.
Mas o coronel Muniz também entende que alguns melhoramentos devem ser feitos com urgência. Ele citou duas: a criação da terceira pista de rolamento na avenida Francisco Junqueira, eliminando-se o estacionamento, e a construção de túnel na na Presidente Vargas com a João Fiúsa.
“Essas duas providências ajudariam muito”. O túnel na Presidente Vargas está orçado em sete milhões e deveria ser feito este ano, segundo o coronel.

Transerp propõe prioridade aos coletivos
O gerente de transporte coletivo da Transerp, Reinaldo Lapate, diz que chegou o momento de reavaliar a política de circulação e estacionamento nas ruas e avenidas de Ribeirão Preto. Para ele, só com aumento no número de passageiros em coletivos, é que se poderá minorar o quadro caótico que o nosso trânsito apresenta.
Hoje, a velocidade dos ônibus em nossas ruas é de 13 quilômetros/horário, no máximo. O ideal é velocidade acima de 25 quilômetros/hora. Mas isso só será alcançado se a política de estacionamento for reavaliada.
“Temos que dar prioridade ao transporte coletivo nas vias onde ele compete fortemente com as conduções particulares”.
As ruas mais antigas de Ribeirão apresentam largura de sete metros. Com estacionamento permitido num dos lados, o espaço cai para cinco metros, impossível para o tráfego em duas filas.
Lapate defende as ruas como meio de circulação. Ele citou o Rio de Janeiro como bom exemplo. Os estacionamentos foram banidos para melhorar a circulação de ônibus. Hoje, Ribeirão transporta 160 mil pessoas/dia. Se passar a transportar 210 mil - 50 mil a mais – vai tirar muitos carros da ruas.

Kelly fica ferida; Valentim se assusta
SIDNEI QUARTIER

Kelly Cristina Rosado Noma, 24 anos, é enfermeira e atendente de oftalmologista num consultório na avenida Independência com a rua Afonso Celso, no Alto da Boa Vista. Diariamente, nos dois piores horários do dia (manhã e no fim de tarde) ela cruza boa extensão da Independência. Na condição de motoqueira, diz que corre mais risco que o normal. Ela critica a maneira de o ribeirão-pretano dirigir.
“Não dá seta e não respeita as mais comezinhas práticas do trânsito”.
Kelly Cristina mora no Ribeirão Verde, na zona Leste da cidade. Sai de casa perto das 7h30, acessa a avenida Paschoal Inechi, trafega pela Meira Júnior e Independência até chegar ao trabalho.
No engavetamento de segunda-feira, ela foi a última a bater, um pouco abaixo do cruzamento com a Prudente de Morais.
“Tive grande sorte, apesar de sair com o nariz quebrado. Felizmente, não tinha carro atrás de mim. Tentei desviar do Santana mas peguei o cantinho do carro e machuquei. Por enquanto, não sei se vai ser preciso operar. Mas acho que escapei de uma boa”.
Para Kelly, já passou da hora de a Transerp, empresa que cuida do trânsito na cidade, criar corredores para motociclistas, especialmente nas avenidas mais movimentadas.
“Isso facilita o fluxo do trânsito e protege o motoqueiro”, diz.

O pedreiro e o susto
“Foi o maior susto que levei em toda minha existência. Nunca tinha passado por nada igual”.
A frase é do pedreiro Sidnei Valentim, 34 anos. natural de Guaíra. Ele mora no Ribeirão Verde, de onde sai às 7h10. Antes, deixa a esposa no emprego, perto do Cemitério Bom Pastor.
A sua rota é pela Bananal, João Bim, balão de acesso, Meira Júnior e Independência, até o cruzamento com a rua César Lates, na obra onde trabalha.
Ele conta que vinha com seu Kadett e percebeu um carro parado no meio da avenida. A condução que ia à frente, um Fiesta, também parou. Ele disse que freou normalmente. Mas o Uno que vinha atrás bateu nele, lançando seu carro sobre o Fiesta.
“Foram cinco carros e a moto. Eu sofri duas batidas e levei a pior. Felizmente, não me machuquei”.

O azar de Francisco
Potiguar de Natal, Francisco Jonas Ferreira Freitas, 24 anos de idade, vive há 17 em Ribeirão. Conhece tudo da cidade. É um motoqueiro experiente. Mora no Jardim Aeroporto e costuma sair de casa pouco antes das 7h30.
Seu caminho é pela Via Norte e avenidas Francisco Junqueira, Portugal e Presidente Vargas até chegar à rua Chile, onde trabalha como porteiro. A Independência não faz parte de sua rotina.
Mas, na segunda-feira, teve a infeliz idéia de mudar sua rota. Com a moto quebrada, ao invés de levantar mais cedo e pegar um condução, Francisco Jonas pediu o Santana da mãe emprestado.
“Foi outra idéia infeliz”, reconhece.
Ao invés de seguir o caminho tradicional, que conhece como ninguém, enveredou-se pela Independência e acabou transformando-se num dos protagonistas do engavetamento.
“Fiz o que foi possível, freei, tirei de lado mas mesmo assim acertei o Uno. Não teve como evitar a colisão”, contou. E jurou que estava devagar, coisa de 60 quilômetros/hora.
Mas a batida não foi leve. O Santana arremessou o Uno sobre o Kadett do pedreiro Sidnei Valentim.
“Bati o carro, vou ter prejuízo financeiro, cheguei tarde ao serviço e, por muito pouco, não apanhei de minha mãe. Ela ficou uma fera”, lamentou-se.

Máira, a sofredora
A professora Máira Marchi Fonseca, 29, é uma das grandes sofredoras do trânsito ribeirão-pretano. Para sua felicidade, é calma. Sabe lidar com situações adversas.
Ela mora no Jardim Interlagos, na zona Leste, do outro lado da via Anhangüera, e sai de casa bem cedo - perto das 7h - para conseguir chegar em seu trabalho, no Colégio Boulevard, na rua Quintino Bocaiúva, zona Sul.
De cara, enfrenta um engarrafamento difícil para atravessar o pontilhão da Anhangüera. Não bastassem os moradores da região, os motoristas dos condomínios que margeiam a Abrão Assed, com a reforma da rodovia, também optaram pelo mesmo caminho.
Máira, subindo a Independência, viu um Renault parado, quase na esquina da Prudente de Morais. Boa de golpe de vista, percebeu que era um Tipo quem atrapalhava tudo, parado, com o pisca-alerta. Ela freou mas ainda assim atingiu a traseira do Renault.
“Mas meu carro amassou muito mais. Tanto é, que o motorista deu uma olhada rápida e foi embora. Sorte dele. Assim que arrancou, começaram as batidas”. Mulher, sensível, Máira lembra-se bem do socorro que prestaram a Kelly Cristina.
“Corremos para ajudá-la porque sangrava muito. Sobre a batida, não há o que dizer. O Danilo (motorista do Uno) não percebeu o engavetamento e bateu forte no carro da frente”.

O estudante
Quintanista de Direito na Unip, Danilo Henrique Berzoni, tem 29 anos e mora no Jardim Independência. Trafegar pela avenida Independência não é segredo para ele.
Sai bem cedo e depois de deixar a esposa no trabalho e o filho na casa da avó, segue para o escritório de advocacia Dias e Peixoto, na rua Eliseu Guilherme.
Danilo atendeu com tranquilidade o repórter de A Cidade. Confessa que não teve como frear. Quando percebeu o carro da frente parado, já não tinha o que fazer. E lembra que não tinha como andar forte com o trânsito tão lento.
O engavetamento não vai tirar Danilo da Independência. Depois de sair da faculdade, lá pelas 23 horas, volta para casa. “Ainda bem que a escola está no fim”, disse.

41 mil veículos a mais
Só nos primeiros cinco meses deste ano, a 15ª Ciretran - Circunscrição de Trânsito - cadastrou o registro de 40.982 novos veículos em Ribeirão Preto - entre automóveis, motocicletas, ônibus, caminhões e utilitários.
“Esse número eleva a frota de Ribeirão para cerca de 340 mil veículos. Isso sem falar nas conduções que vêm de fora ”, diz o delegado Adílson Massei, diretor da Ciretran.
O número de registro de veículos nos últimos cinco meses é gigantesco. Representa que foram feitos 8.198 registros por mês; 273 por dia; e 11 por hora.
O delegado Massei cita que até 1997, a frota em Ribeirão era de 215 mil veículos.
“Levamos quase cem anos para reunir 215 mil veículos, praticamente desde a invenção automóvel. Agora, em apenas dez anos, nossa frota cresceu quase 115 mil veículos”.
O superintendente da Transerp, coronel Antonio Carlos Muniz, disse que em janeiro deste ano, num único dia, Ribeirão colocou 68 carros zero quilômetros nas ruas. “Eu tenho estes números”, afirmou.

Manhã de segunda-feira quase sempre é crítica, diz psicólogo
O psicólogo Sérgio Kodato, professor da USP-RP, diz que a manhã de segunda-feira é um dos períodos mais críticos da semana no trânsito. É quando a pessoa sai de um relaxamento longo, excede na bebida e na comida e os reflexos não estão cem por cento.
“Além disso - lembra o psicólogo - é comum a pessoa transferir as responsabilidades de sexta-feira para a segunda, gerando uma pressa acima do normal em sair de casa e chegar logo ao trabalho.
“Quem nunca propôs numa sexta à tarde adiar algum trabalho para segunda-feira? questiona o psicólogo. Junta-se à ressaca do motorista, a atenção desviada para o outdoor e o uso indevido do celular.
Para Kodato, a cultura do trânsito em Ribeirão Preto, está mudando. E os quatro engavetamentos de segunda-feira são prova disso.
“Temos a mania de dirigir automaticamente, achando que estes fundamentos são o suficiente para seguir adiante, sem prestar atenção. Vamos ter que mudar de comportamento, principalmente por causa do aumento excessivo da nossa frota”.
O psicólogo aconselha que chegou a hora de se dirigir como se estivesse no trânsito de São Paulo, onde os grandes erros não costumam ser perdoados.
Ele defende que já passou da hora de os poderes constituídos planejarem melhor a cidade.“ A segunda-feira, pelos acidentes registrados, foi uma manhã tipicamente paulistana”, disse.

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